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Análise: A nova esquerda digital

Boulos e Manuela humanizam campanha nas redes sociais e caminham para conquistar liderança no espectro político, ao contrário do PT, que não se recuperou do tombo de dois anos atrás

Manoel Fernandes*, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Dois candidatos a prefeito e, talvez, os seus partidos deixarão o primeiro turno da eleição municipal com o real entendimento do impacto da internet na formação da opinião do eleitor. Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo e Manuela D’Ávila em Porto Alegre repetiram parte do fenômeno que fez o presidente Jair Bolsonaro ganhar a eleição de 2018 com apenas sete segundos no horário eleitoral. 

Ao contrário do PT, que ainda não se recuperou do tombo de dois anos atrás, Boulos e Manuela deixaram mais leve e pessoal a conversa com seus eleitores por meio das redes sociais e se aproximaram mais das táticas da rede bolsonarista e dos movimentos mais conservadores até aqui hegemônicos na construção de narrativas para a opinião pública digital.

Publicando posts mostrando a casa, ao lado da filha, a rotina longe da política e mesmo zombando de notícias falsas produzidas por seus adversários, a candidata do PCdoB humanizou a campanha e colocou em segundo plano o discurso mais dogmático da sua legenda, algo que Orlando Silva não conseguiu reproduzir em São Paulo. Boulos criou memes de si próprio e até apareceu ensinando em um vídeo a sua receita de costela de porco. Nada parecido com a sisudez da esquerda tradicional.

Esses dois personagens caminham para conquistar a liderança do campo da nova esquerda digital. O PT não seguiu a mesma trilha. Com exceção de Marília Arraes no Recife e Benedita da Silva no Rio de Janeiro, nenhum candidato da legenda conseguiu no primeiro turno ter forte presença na campanha eleitoral na internet. Essa eleição reforçou o que já se sabia há algum tempo. Não há mais espaço para a política analógica. 

Os candidatos a prefeito das capitais, acompanhados diariamente pelo Sistema Analítico BITES, publicaram 144 mil posts desde 27 de setembro quando a campanha começou. Essas peças de campanha receberam 95 milhões de interações (curtidas, comentários, compartilhamentos e retuítes) dos seus seguidores.

Desse total, Boulos conseguiu 24% da atenção e Manuela, 10%. A segunda posição foi de Arthur do Val, candidato do Patriotas em São Paulo, que ficou com 17% das interações - e que não tem chances de vencer, mas sai muito maior do que entrou na campanha. Ele repetiu na disputa toda a estratégia que fez do seu grupo político, o MBL, uma das forças emergentes de 2018. 

O ecossistema da política digital brasileira tem 402 milhões de contas no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube seguindo os perfis oficiais nessas redes sociais do presidente da República, senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores das capitais. É o suficiente para pautar o debate político e tornar as redes, cada vez mais, uma arena da democracia.

* É DIRETOR DA BITES

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