FABIO MOTTA /ESTADÃO
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Análise: A eleição das milícias

Adversários ou concorrentes, sejam de territórios ou da política, passam a ser constrangidos e ‘convidados’ a saírem de cena

Raul Jungmann *, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 19h43

A violência e a insegurança levaram a que policiais se tornassem milicianos para combater criminosos, a violência e a insegurança. Por paradoxal que pareça, foi assim que as milícias se formaram no Rio de Janeiro.

Como quem controla o território controla o voto, as milícias e o crime organizado passaram a colocar no parlamento municipal e estadual seus representantes, formando as suas bancadas. Estas, por sua vez, passaram a indicar representantes seus ou aliados para cargos no executivo na área da segurança pública, numa verdadeira metástase. Esse quadro, em graus variáveis, se repete País afora, e o nosso risco maior, a evitar, é que o Rio de Janeiro seja o Brasil de amanhã... Controlando os votos da comunidade e com recursos das suas atividades criminosas, os milicianos têm o que oferecer aos políticos. Parte deles, não todos, ressalte-se, tornam-se seus aliados no legislativo e lhes dão cobertura e fornecem blindagem junto ao judiciário e o executivo. Está formado o coração das trevas.

Paulatinamente, outras partes do Estado são capturadas – forças de segurança, órgãos de controle, judiciário, ministério público, e forma-se uma associação criminosa baseada na mútua proteção e no rateio dos ganhos do crime. Nesse contexto, adversários ou concorrentes, sejam de territórios ou da política, passam a ser constrangidos e “convidados” a saírem de cena. Caso não aceitem o convite, passam a ser alvos potencias de eliminação sumária. Que é o que estamos vendo nesse crescendo de assassinatos políticos às vésperas, durante e mesmo após as eleições, como demonstra a reportagem do Estadão.

* EX-MINISTRO DA SEGURANÇA PÚBLICA, DEFESA E REFORMA AGRÁRIA 

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