Imagem Laura Greenhalgh
Colunista
Laura Greenhalgh
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Amigo de ex-presidente não acredita em assassinato

O escritor Iberê Teixeira afirma que Jango morreu do coração e relembra que ele manteve hábitos de vida pouco saudáveis

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2013 | 02h03

Na contramão da expectativa mais forte, de que se encontrem indícios de envenenamento no corpo do ex-presidente João Goulart, um são-borjense ilustre contesta a hipótese: "Ele não foi assassinado. A ditadura o matou, mas penso que foi de tristeza", crava o advogado e escritor Iberê Teixeira. A afirmação baseia-se, de saída, em duas observações pessoais.

Poucos meses antes de morrer, Jango, que pretendia retornar ao Brasil depois de 12 anos de exílio, confessou ao amigo sua amargura com a decisão do general Sylvio Frota de prendê-lo caso colocasse os pés em território nacional. "Aquilo doía muito no dr. Goulart", relembra. A outra observação vem do mesmo encontro, quando Iberê jantava com o ex-presidente em uma de suas fazendas uruguaias: "Lembro que Tito, cozinheiro do doutor, preparou-nos um ensopado de espinhaço de ovelha, com mandioca. Um cardiopata como Jango, que adorava comidas pesadas, além de uísque e cigarro? Ele um dia passaria muito mal".

Iberê tornou-se janguista na mocidade, destacando-se como líder estudantil em São Borja. A militância só os aproximou ao longo dos anos. Quando correu a notícia em São Borja da morte do ex-presidente, o jovem advogado pegou seu carro e foi esperar o corpo no trevo de Itaqui, já em solo brasileiro. Lembra-se da confusão armada em torno do funeral improvisado e, em particular, do rosto do amigo através do visor ovalado do caixão: "Suas narinas sangravam".

Hoje rejeita as versões de envenenamento propagadas anos atrás por um ex-agente secreto uruguaio, Mario Neira Barreiro, que confessou ter participado da Operação Escorpião, suposto plano de eliminação de João Goulart. "Esse sujeito é um fanfarrão", declara. Para Iberê, os testemunhos de Barreiro ao escritor Carlos Heitor Cony, ao historiador Moniz Bandeira e ao próprio filho de Jango, João Vicente, são inverossímeis.

Testemunhos feitos com um único objetivo, segundo o advogado, que preside uma comissão para dar apoio à Comissão Nacional da Verdade neste caso: preso no Rio Grande do Sul, o ex-agente uruguaio pretenderia driblar o pedido de extradição do Uruguai, onde é acusado de múltiplos crimes, qualificando-se aqui como preso político. "A ditadura não iria eliminar Jango no exílio, quando havia alvos prioritários entre as lideranças de esquerda, como Francisco Julião, Miguel Arraes, o próprio (Leonel) Brizola."

Autor de Os Ossos do Presidente, livro em que trata da exumação de Getúlio Vargas, realizada em1982, também em São Borja, Iberê tem repetido que a perícia sobre os restos mortais de Jango pode não encontrar nada de extraordinário. Ele acredita que a má conservação dos despojos deve inviabilizar o processo. Se isso acontecer, calcula o advogado cético, a história não fecha. Avalia que este será o pior cenário. "O País não pode continuar na dúvida, isso não é bom. Sigo creditando que ele morreu do coração. Mas, claro, ainda poderei morder a língua". Iberê deve expor suas convicções em novo livro, Jango e a Ditadura, em fase de finalização.

Tudo o que sabemos sobre:
exumaçãojangojoão goulart

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.