CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DO INSPER., O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h05

"Alto" e "baixo" cleros eram expressões que distinguiam parlamentares pela capacidade de intervir na cena política nacional. Havia um tipo de político que compreendia desafios gerais; formulava, negociava, persuadia; conduzia o processo. O "alto clero", onde residia a elite parlamentar. No "baixo", acomodavam-se os inexperientes, provincianos ou fisiológicos que pouco tinham a dizer. Não possuíam maior relevância.

O termo sumiu da mídia; não há mais "alto clero". Seus parlamentares morreram, aposentaram-se, queimaram-se ou perderam o viço. Passaram. A Grande Política se esvaziou e não houve renovação à altura - ou foi o contrário. O "baixo clero" mostrou-se mais adaptável a esses desertos e passou a controlar o processo, elevando custos de transação.

Não é de hoje, nem exclusiva é a responsabilidade dos sucessivos governos - tanto cúmplices quanto vítimas. A hegemonia de "baixo clero" se estabeleceu como um Minotauro que domina o labirinto: é exasperante e impede as saídas. A influência passou a ser medida pela capacidade de pressionar o Executivo; arrancar-lhe cargos, obras e recursos. Pode ser até normal, o ruim é que se limite a isto.

Atendendo aos reclamos das bases, conquistam-se exércitos de pares agradecidos, fiéis e capazes de pressionar os governos. As cabeças da hidra se multiplicam e suas bocas são ainda mais vorazes. O PMDB é o especialista em alimentar a fera, mas a lógica da maioria dos partidos é copiá-lo. Todavia, falta o que dizer sobre desafios que batem à porta: qual a agenda da segurança, como superar o pibinho, por exemplo? O silêncio é constrangedor: o Parlamento não pode ser entendido como o sindicato dos políticos.

Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves não pintaram sozinhos este quadro. Apenas viveram e compreenderam a sua transformação, ao longo dos anos; estão entre os que melhor o manipulam. Resultado de uma seleção adversa - estabelecida na política, mas definida pela sociedade -, não são causa, mas efeitos e beneficiários desses males. O que restou. Primus inter pares.

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