Alckmin pede acesso a acusações de corrupção contra secretários

Governador vai à Justiça por documentos em que ex-diretor da Siemens relata 'forte esquema' na gestão paulista

Carla Araújo - O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2013 | 02h12

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse ontem que vai pedir acesso aos documentos em posse da Polícia Federal antes de tomar qualquer atitude em relação a acusações contra seus auxiliares que constam de inquérito sobre o cartel de trens em São Paulo. Ele afirmou que já entrou com pedido na Justiça para obter a íntegra das informações relatadas pelo ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer.

O Estado revelou ontem que o ex-executivo da empresa alemã entregou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) relatório em que afirma ter "documentos que provam a existência de um forte esquema de corrupção no Estado de São Paulo durante os governos (Mário) Covas, (Geraldo) Alckmin e (José) Serra, e que tinha como objetivo principal o abastecimento do caixa 2 do PSDB e do DEM".

No mesmo documento, o ex-diretor da empresa alemã disse que o hoje secretário da Casa Civil do governo Alckmin, deputado licenciado Edson Aparecido (PSDB), foi apontado pelo lobista Arthur Teixeira como recebedor de propina das multinacionais suspeitas de participar do cartel de trens na capital paulista entre 1998 e 2008. O deputado Arnaldo Jardim (PPS), ligado aos tucanos paulistas, também é citado como beneficiário.

Aparecido afirmou ontem que vai processar Rheinheimer. "Vou processar esse bandido, que faz denúncia desse tipo em troca de cargo. (Isso é) absolutamente ilegal", afirmou o chefe da Casa Civil. A frase do tucano é uma referência do fato de, no relatório, o ex-diretor da Siemens sugerir que queria receber uma contrapartida por fazer as denúncias: no caso, sua nomeação para alto cargo na mineradora Vale.

As acusações do ex-diretor foram enviadas pelo Cade à Polícia Federal, segundo relatório de um delegado federal de Brasília. O material foi anexado ao inquérito que investiga o cartel em São Paulo e no Distrito Federal.

Rheinheimer cita outros políticos no relatório, incluindo mais secretários de Alckmin. A Jurandir Fernandes (Transportes Metropolitanos), José Aníbal (Energia), deputado licenciado do PSDB, e Rodrigo Garcia (Desenvolvimento Econômico), deputado licenciado do DEM, é atribuído um "estreito relacionamento" com Teixeira, diretor-presidente da Procint e apontado como intermediário de propinas pagas pelo cartel. O ex-diretor afirma ainda que o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) também seria próximo de Teixeira.

Jurandir disse ontem que manteve relação "estritamente profissional" com Teixeira. "Conheço o cidadão, estive com ele três vezes nestes 35 meses de governo, mas minha relação foi e tem sido totalmente profissional." Aníbal afirmou ontem, em nota: "De mim ele vai receber o tratamento que merece. Estou abrindo ações para processá-lo por calúnia e difamação e também por danos morais. Quero vê-lo onde ele estará cedo ou tarde: na cadeia."

Aloysio Nunes também divulgou nota. O senador, cotado para ser vice na chapa do colega de partido Aécio Neves à Presidência da República, afirma que conhecia Teixeira, mas nunca manteve vínculos com o lobista.

Nota. Presidente do PSDB, Aécio disse ontem, em nota oficial, que o partido repudia o que classificou de "interferência político-partidária na averiguação de formação de cartel". "Causa repulsa o fato de o Cade, presidido por alguém ligado ao PT, esconder do Judiciário e da Corregedoria-Geral paulistas uma denúncia feita explicitamente com promessa de emprego futuro."

Aécio fez menção à ligação de Vinícius Carvalho, presidente do Cade, com o secretário de Serviços da gestão de Fernando Haddad, deputado estadual licenciado Simão Pedro (PT). Antes de assumir a chefia do órgão, Carvalho trabalhou com o petista, autor de representações que apontavam suspeitas de formação de cartel. A ligação entre eles foi revelada pelo Estado em 25 de setembro. Pedro confirmou ter acionado o Cade e disse que todas as suas ações "foram divulgadas, o que evidencia a prática de transparência que caracteriza o meu mandato".

Motivada pela revelação do conteúdo do documento do ex-diretor da Siemens, a bancada do PT na Assembleia pediu o afastamento dos secretários mencionados. "Não tem sentido afastar (os secretários), já que não tivemos acesso aos documentos", afirmou Alckmin ontem. / COLABOROU FERNANDO GALLO

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