Alckmin adota novo perfil ao firmar parceria com Dilma

Governo do tucano quebra rivalidade histórica com PT, evidente nas gestões de Serra e Lula; aproximação já incomoda os partidos

LUCAS DE ABREU MAIA, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2012 | 03h04

Em agosto, ao lado da presidente Dilma Rousseff, Geraldo Alckmin - governador do maior Estado controlado pela oposição - afirmou: "Ultrapassamos um período de disputas". Era o anúncio da parceria do governo federal com o Estado de São Paulo para o lançamento do programa de combate à pobreza extrema, o Brasil Sem Miséria, principal bandeira eleitoral de Dilma em 2010 e que Alckmin adotou como prioridade após eleito.

Como resposta, menos de um mês depois, ao retornar ao Palácio dos Bandeirantes - reduto do PSDB há 16 anos -, a presidente não hesitou ao definir sua relação com o tucano: "(Ele) tem sido um excepcional parceiro nesses oito meses de governo".

Em 2011, os projetos que envolvem parcerias entre os governos estadual e federal foram anunciados com galhardia por ambos os lados, em contraste com a relação, por vezes perfurada por farpas, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador José Serra.

Só no primeiro ano de mandato, Dilma e Alckmin articularam acordos nas áreas de infraestrutura, habitação, educação e combate à pobreza. A explicação, acreditam tucanos e petistas, é política: sem planos para disputar a Presidência em 2014, o governador paulista conseguiu aproximar-se da presidente, que não o enxerga como um potencial rival em sua reeleição.

Em São Paulo, o setor de transportes será o mais beneficiado pelos recursos federais ao longo dos próximos anos. A União deve enviar ao Estado ao menos R$ 3 bilhões para projetos de infraestrutura no setor -R$ 1,75 bilhão só para a construção do trecho norte do Rodoanel. Cerca de R$ 900 milhões já foram liberados pelo governo federal para obras na Hidrovia Tietê Paraná e mais R$ 1 bilhão deve ser investido na criação do Ferroanel.

As parcerias estendem-se, ainda, a uma das principais vitrines do governo Dilma, o programa Minha Casa, Minha Vida. A presidente deve voltar a São Paulo no primeiro mês de 2012 para firmar novo acordo com o governo paulista: liberará cerca de R$ 1.5 bilhão para complementar a construção de 97 mil casas.

Foi na área social, contudo, em que a sintonia entre Dilma e Alckmin chamou mais atenção. A presidente escolheu São Paulo para lançar o Brasil Sem Miséria na Região Sudeste. Alckmin, por sua vez, classificou o acordo, que prevê a unificação do Bolsa Família (do governo federal) com o Renda Cidadã (do Estado), como "um marco".

"A sinalização da presidente (de que quer parcerias) é muito positiva, porque transmite o mesmo sentimento para o resto da equipe. Temos percebido uma receptividade maior dos ministros", afirma o secretário da Casa Civil, Sidney Beraldo.

"São projetos que ultrapassam linhas partidárias e beneficiam a população", acrescenta Edson Aparecido, que comanda a pasta do Desenvolvimento Metropolitano, destinatária de grande parte dos recursos federais.

Mão dupla. Para o cientista político Carlos Mello, as parcerias entre São Paulo e União beneficiam a ambos. "Alckmin consegue recursos para projetos importantes, que podem ajudar na sua reeleição, e Dilma, aos poucos, diminui a resistência ao PT em São Paulo", opina.

Internamente, contudo, tanto petistas quanto tucanos demonstram insatisfação com o clima de cordialidade. Para líderes nacionais do PSDB, as parcerias com Dilma podem esvaziar o discurso da oposição nas próximas eleições presidenciais.

Já no PT, que escolheu São Paulo como sua prioridade eleitoral em 2014, a aproximação com Alckmin pode atrapalhar os planos de eleger, pela primeira vez, um governador petista. "As parcerias são exclusivamente administrativas", diz o líder do partido na Assembleia Legislativa, Enio Tatto. Para ele, os acordos firmados são "um ato de grandeza da presidenta Dilma" e devem ser fiscalizados para garantir a boa aplicação dos recursos.

Em uma comparação das gestões tucana e petista, Tatto afirma ser um "absurdo" que Alckmin tenha reduzido o montante do orçamento direcionado para investimentos (R$ 12 bilhões, 37% a menos que no ano passado). "É um absurdo que o Estado tenha diminuído os investimentos em ano de crise, quando o governo federal faz o possível para estimular a economia", ataca.

Legislativo. As maiores dificuldades do governo Alckmin tiveram origem no Legislativo. O escândalo das emendas secretas - iniciado quando o deputado Roque Barbiere (PTB) acusou colegas de vender emendas parlamentares para prefeituras do interior - esbarrou no Palácio dos Bandeirantes, quando os secretários, especialmente Bruno Covas (Meio Ambiente), tiveram os nomes citados no episódio. O governo também foi acusado de falta de transparência na divulgação das emendas parlamentares.

Ainda assim, Alckmin não enfrentou resistência na Assembleia e conseguiu aprovar todos os projetos que encaminhou à Casa. Sua principal agenda legislativa foi o afago ao funcionalismo público. Ele bancou a aprovação de mais de 15 projetos com benefícios salariais para os trabalhadores do Estado; mais de 90% dos funcionários receberam aumentos salariais.

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