Carla Carniel/Reuters - 29/1/2022
Carla Carniel/Reuters - 29/1/2022

Ala do PSOL ataca apoio da sigla a Lula e trata Rede como ‘partido burguês’

Corrente que inclui fundadores da legenda diz em carta que petista ‘jamais’ ultrapassou ‘os limites de um pálido social-liberalismo’

Natália Santos e Luiz Vassallo, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 13h08
Atualizado 30 de março de 2022 | 14h57

Uma corrente do PSOL passou a colher assinaturas para um documento que critica o apoio do partido à candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A carta defende a candidatura do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) ao Palácio do Planalto. 

Os signatários da carta condenam também a formação de uma federação da legenda com a Rede, que foi aprovada nesta quarta-feira pelo PSOL. Segundo a Folha de S.Paulo, entre os nomes que assinam o documento estão os ex-deputados Babá (PA) e Milton Temer (RJ), fundadores da sigla. 

Na carta, os militantes afirmam que “iludem-se redondamente os que acalentam a esperança de que Lula possa revogar os ataques recentes do capital contra o trabalho”. “Ao longo de sua história, Lula cumpriu papéis muito diferentes na luta de classes”, diz o texto. 

“O Lula romântico de 1989, embalado pelos ventos fortes das greves do ABC e da campanha das Diretas Já, portador de uma esperança genuína de reformismo social, está muito distante do Lula pragmático de 2002, que surfou no boom de commodities internacionais, sem jamais ultrapassar os limites de um pálido social-liberalismo”, dizem. 

Os militantes se dizem “surpreendidos” pela direção do partido, em “desacato a todas as instâncias decisórias”, de “abrir negociações formais com o PT em torno de um apoio imediato à Chapa Lula-Alckmin e iniciar entendimentos para a formação de uma federação partidária com a Rede — um partido assumidamente burguês, financiado pela família Setúbal do Banco Itaú”.

Apoiado por estes militantes, Glauber Braga também vinha se manifestando contra a aliança com a Rede. Ele tem criticado a direção do PSOL por retirar candidaturas próprias em meio a negociações com o PT. O partido já retirou, por exemplo, a candidatura do líder do MTST, Guilherme Boulos, ao governo de São Paulo. Boulos, que é ligado a Lula, tentará a Câmara e vai apoiar Fernando Haddad para o Palácio dos Bandeirantes. 

Após a vitória de Lula em 2002, divergências entre o grupo fundador do PSOL e o PT se intensificaram

O PSOL foi fundado em junho de 2004 após uma dissidência do PT. As divergências entre o grupo fundador do PSOL e a direção do PT começaram antes mesmo da eleição de Lula para a Presidência da República, em outubro de 2002. O motivo inicial foi a escolha do vice, o empresário José Alencar (PL). Na época, a senadora Heloísa Helena, então do PT de Alagoas, se opôs à escolha.

Após a vitória de Lula, as divergências entre o grupo e o PT só se intensificaram. Heloísa Helena se opôs a outras duas indicações do petista: a de Henrique Meirelles (PSDB) para a presidência do Banco Central, e a de José Sarney (PMDB) para a presidência do Senado. Em 2003, a senadora votou contra a reforma da Previdência e foi acusada de votar 19 vezes contra propostas legislativas apoiadas pelo governo Lula, em um período de um ano.

Seguindo os passos da senadora, os então deputados federais Babá (PA), João Fontes (SE) e Luciana Genro (RS) também se posicionaram contra decisões tomadas pelo governo Lula ao assumirem os cargos em 2003, o que gerou conflitos com as lideranças do PT.

Os embates com o governo Lula resultaram na expulsão de Heloísa Helena, Babá, João Fontes e Luciana Genro em dezembro de 2003 pelo diretório nacional do PT. A decisão foi tomada por 55 votos a favor e 27 contra, sob a justificativa de que os parlamentares tinham ferido o código de conduta do partido, agindo contra orientações da sigla.

O PSOL obteve o registro definitivo em setembro de 2005. Hoje, o partido conta com cerca de 221 mil filiados e, nas eleições de 2018, conquistou 10 cadeiras na Câmara dos Deputados.

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