Agência é cabide de empregos, diz acusado de chefiar quadrilha

Paulo Vieira nega delação premiada e afirma que vai 'provar inocência' na Justiça

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2012 | 02h08

Paulo Vieira, apontado pela Polícia Federal e pela Procuradoria da República como chefe de uma quadrilha que corrompia servidores de órgãos públicos federais para compra de pareceres técnicos, afirma que na Justiça vai provar sua inocência Ex-diretor de Hidrologia da Agência Nacional de Águas (ANA), cargo que assumiu em 2011 por indicação de sua amiga, Rosemary Noronha, ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, nega que tenha pago propina a Cyonil Borges, do Tribunal de Contas da União. Denunciado sob acusação de corrupção ativa, falsidade ideológica, falsificação de documento particular, tráfico de influência e formação de quadrilha, ele disse que a ANA é um "cabide de empregos". Afirmou que não tem a intenção de delatar outros nomes no caso e que vai provar 'sua inocência'.

Como o sr. planeja se defender diante das acusações da Operação Porto Seguro?

Pretendo responder a todas as acusações na Justiça, apresentando documentos comprobatórios e testemunhas contra cada uma das acusações. Confio plenamente na Justiça e no Estado de Direito. Estou sofrendo uma grande injustiça, juntamente com os meus irmãos e diversos amigos. Espero que Deus me ajude!

A Procuradoria imputa ao sr. papel decisivo no "núcleo principal da quadrilha", juntamente com seus irmãos, Rubens e Marcelo. Quem são os empresários que tinham interesse na compra de pareceres?

Não conheço a denúncia, pois o meu advogado ainda não teve acesso, estou falando com base no inquérito da Polícia Federal. No Brasil de hoje o advogado conhece a denúncia depois da imprensa. Não falsifiquei nem mandei falsificar documento nenhum e vou levar as comprovações à Justiça. É preciso o Ministério Público Federal apontar quais os pareceres que foram supostamente vendidos. São quantos, onde estão e em que datas foram vendidos, quem são os empresários beneficiados por esses pareceres. É preciso o Ministério Público indicar, e em que órgãos foram feitos. Pelo que sei não existem tais pareceres, por que eles, MPF e Polícia, não juntam no processo? É preciso dizer quais são.

Segundo a Procuradoria o sr. "tinha como principal atividade e meio de vida o trabalho de intermediação dos interesses particulares de grandes empresários".

É preciso o MPF fazer uma pesquisa dos meus trabalhos na ANA e na CODESP nos anos referentes à investigação. Vou levar à Justiça. Só a título de exemplo, escrevi diversos trabalhos sobre água, já publicados, fiz mais de duzentos relatórios e votos na ANA, acima da média dos demais diretores. Estive em mais de 90% das reuniões colegiadas da ANA. Participei de missões oficiais na China e em Portugal representando a ANA. Acompanhei trabalhos da ANA em quase todos os estados da federação. É só requisitar as informações na ANA.

Como o sr. conheceu Rose? O sr. despachava no gabinete dela?

Ela é minha amiga pessoal, fui padrinho de casamento de uma das filhas dela. Trata-se de pessoa honesta e trabalhadora. Não despachava no Gabinete dela, mas acho que atendi autoridades públicas lá umas três, quatro vezes, é só levantar no serviço de segurança. Nossa relação privada não pode ser criminalizada pelo Ministério Público Federal.

A Procuradoria acusa o sr. e Rose por tráfico de influência. A denúncia diz que 'a alegada amizade existente entre Rose e os irmãos Vieira, com troca de favores frequentes, na realidade constitui-se na prática reiterada de crimes de tráfico de influência e de corrupção'.

O MPF agora quer ditar os limites de relações privadas entre servidores do Estado brasileiro, em situações, fora das atribuições dos nossos cargos! é uma acusação absurda, sem provas.

A denúncia sustenta que Rose foi a responsável pela nomeação do sr. e de seu irmão Rubens para cargos nas agências reguladoras. Qual o grau e participação de Rose nessas nomeações?

A indicação para esse tipo de cargo é um misto entre capacidade técnica e articulação política. Fui apoiado por muitas pessoas, saí pedindo apoio no meio político, inclusive para a sra. Rose. Todos os diretores da ANA são indicados por políticos, vejamos: Vicente Andreu, ex diretor da CUT, indicado de Zé Dirceu, é meu inimigo; Paulo Varela, indicado pelo Garibaldi Alves; Dalvino, indicado pelo PSB; e João Lotufo, indicado pelo ex-deputado petista José Machado de Piracicaba-SP. A ANA é um dos maiores cabides de emprego e cargos comissionados do Governo, um orçamento milionário, gasto com ONG, a maioria sem licitação. É preciso o MPF fiscalizar a ANA e verificar a situação de toda ela, não perseguir um único dos diretores.

O sr. chegou a conversar com o ex-presidente Lula alguma vez? Sobre sua nomeação o sr. chegou a falar com o ex-presidente?

Sim, uma única vez em 2011. A minha indicação para a ANA foi em 2009. Nunca falei com o presidente Lula sobre a minha indicação para a a ANA, pois a primeira vez que falei com ele já era diretor da ANA há quase um ano. Nunca tive relação com o presidente Lula. Agora, como a maioria dos brasileiros tenho muita admiração por ele.

Ao ex-ministro José Dirceu (Casa Civil) o sr. chegou a pedir para chegar à ANA. O sr. é amigo de Dirceu?

Conheço, mas não tenho relação de amizade. O ex-ministro não fez qualquer movimento político para me indicar para a ANA. Indicou o sr. Vicente Andreu, petista de Campinas.

O sr. concedeu vantagens a Rose?

A Rose fez as reformas de flat meu em São Paulo e de um pequeno restaurante de um irmão meu, também em São paulo. O marido dela tem uma pequena construtora, acho que uma microempresa. O ex-marido da Rose já havia feito cursos superiores na FMU e nas faculdades Tibiriçá. Em Dracena foi feito aproveitamento de estudos. Há previsão na legislação para aproveitamento de estudos, é só buscar as disciplinas cursadas nessas faculdades. Não há diploma falso. Eu não pedi camarotes para parentes da Rose a nenhuma empresa. A filha e o primo da Rose que foram contratados para cargos de comissão no Governo são qualificados para os cargos, eram cargos de comissão, criados para indicação pela própria lei. A viagem de navio foi um pagamento de gastos que a Rose teve comigo em data anterior, até medico a Rose nos ajudava a arrumar, é uma grande amiga.

O sr. se dispõe a fazer delação premiada?

Não me disponho a fazer delação premiada. Não fiz nada contra a lei e vou provar na Justiça. Não tenho nada a delatar para o MPF, a minha vida, dos meus amigos e parentes foi investigada no período de primeiro de setembro de 2009 até os dias atuais. Não é verdade que o meu advogado levou proposta de delação premiada para a sra. procuradora Suzana do MPF, é preciso ela mostrar a prova de tal proposta, antes de sair falando na imprensa e colocando a minha vida e de meus familiares em risco. Vou levar a questão ao CNMP.

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