Marcos Fernandes/Divulgação
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Aécio sinaliza mudança na política externa

Ao presidente da Comissão Europeia, tucano afirma que, se eleito, vai dar prioridade a acordo de comércio com o continente

Pedro Venceslau e Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2014 | 02h02

Candidato do PSDB à Presidência, o senador Aécio Neves encontrou-se ontem no Rio de Janeiro com o presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Durão Barroso, e disse que a realização de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia será uma das prioridades de um eventual governo tucano.

Na saída da reunião, o tucano afirmou que a política externa brasileira "prioriza o alinhamento ideológico e promove alianças apenas com países vizinhos". O comentário foi feito dias depois de o Brasil ter assinado, em encontro dos Brics em Fortaleza, acordo para criação de um grande banco da aliança, com capital inicial de US$ 50 bilhões.

Apesar das críticas feitas ao atual modelo do Mercosul, que têm sido recorrentes em seus discursos, Aécio evitou defender a proposta de acabar com a união aduaneira entre os países do bloco e transformá-lo em uma área de livre comércio. Essa ideia havia sido defendida pelo tucano em pelo menos duas ocasiões: em entrevista ao jornal argentino La Nación, em junho, e em palestra em Porto Alegre no Fórum da Liberdade, que ocorreu em abril.

Avaliações partidas até de diplomatas ligados a governos tucanos, no entanto, sugerem que essa mudança não seria tão simples. "Para fazer isso (acabar com a união aduaneira entre os países do bloco) seria preciso abolir a tarifa externa comum. Ela foi criada em 2004 no Protocolo de Ouro Preto. Na prática, seria preciso modificar o tratado, o que é muito difícil", afirma Rubens Barbosa, embaixador do Brasil nos EUA entre 1999 e 2004.

Apontado como um dos quadros mais fortes para a diplomacia brasileira caso o PSDB volte ao Planalto, Barbosa explica que o Brasil não pode decretar unilateralmente o fim da tarifa externa comum. "Mesmo aqui no Brasil não é consensual no meio empresarial essa volta para a área de livre comércio ou a ideia de acabar com o Mercosul", diz ele.

Cuidado. Para Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, "é preciso cautela" com "afirmações sobre diplomacia em ano eleitoral", pois muitas pessoas "tendem a transformá-las em disputa ideológica". Nasser vê "mais semelhanças do que diferenças" entre as diplomacias da Era FHC e a que se seguiu, de Lula e Dilma. "O que tenho percebido é que a ideia de o Brasil se afastar da Unasul não está tanto assim no horizonte", afirma o professor.

Nasser menciona, entre outras razões para isso, os interesses de empresas brasileiras - por exemplo, da Odebrecht na Venezuela, onde ela participa de importantes projetos de infraestrutura, ou da indústria automobilística na Argentina. A política externa de grandes países, acrescenta, convive com lobbies. "O governo não funciona, na diplomacia, como algo isolado da sociedade", conclui.

Flexibilização. No trecho que aborda a diplomacia nas diretrizes do programa de governo de Aécio Neves registradas no Tribunal Superior Eleitoral, fala-se em "reestabelecer a primazia da liberalização comercial" para recuperar "os objetivos iniciais do Mercosul e flexibilizar suas regras".

Em nenhum momento, porém, o texto defende claramente a conversão do Mercosul em uma área de livre comércio. "Transformar o Mercosul em área de livre comércio seria, na prática, o mesmo que acabar com o bloco", afirma, a respeito da questão, o professor de Relações Internacionais da PUC-DF Creomar de Souza. Ele lembra que o Mercosul "nasceu nos anos 1990 com a ideia de se criar uma comunidade sul-americana de nações, e não apenas de comércio. Sendo uma área de livre comércio, você limita o elemento político".

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