Aécio se diz 'traído' por Demóstenes

Tucano, que indicou prima de Cachoeira para cargo, alega que atendeu a demanda partidária

ROSA COSTA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2012 | 03h07

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse ontem que se sente "traído" pela iniciativa do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) de lhe pedir a nomeação de uma prima do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, para um cargo comissionado no governo de Minas. A prima de Cachoeira, Mônica Beatriz Silva Vieira, assumiu a Diretoria Regional da Secretaria de Estado de Defesa Social, em Uberaba, em 25 de maio do ano passado.

Aécio reiterou que, há um ano, não via motivos para questionar um pedido do colega Demóstenes, tido então como "um senador acima de qualquer suspeita". "Eu me sinto traído na minha boa-fé, mas fiz aquilo que faço quando recebo indicação de partidos aliados", afirmou o senador. "Ele fez uma indicação que cabia ao seu partido e, como ela tinha qualificação, encaminhei o pedido à Secretaria de Governo."

Como revelou o Estado na edição de ontem, escutas telefônicas da Polícia Federal (PF), do pedido de Cachoeira a Demóstenes até a nomeação de Mônica, bastaram apenas 12 dias e 7 telefonemas. A PF monitorou Demóstenes, Cachoeira e sua prima no âmbito da Operação Monte Carlo.

São citados nas conversas interceptadas pelos grampos também o deputado federal Marcos Montes (ex-DEM e atualmente no PSD) e o secretário de Governo de Minas, Danilo de Castro, articulador político de Aécio no Estado.

Defesa. O senador tucano observou que, na época, comunicou ao presidente do DEM, José Agripino (RN), que aquela demanda estava sendo atendida. Aécio garantiu que não tem nenhum tipo de relação com Carlinhos Cachoeira.

Ele disse lamentar "profundamente" que um senador da República se disponha a defender interesses de um contraventor. "E só ontem ficamos sabendo disso." "Nem eu nem ninguém no Brasil sabia há um ano dessas ligações do senador Demóstenes. A imprensa dava a ele a aura de combatente contra a corrupção, o grande legalista, e todo mundo está absolutamente decepcionado", justificou.

O ex-governador mineiro, cujo mote à frente da administração pública sempre foi o chamado "choque de gestão", concordou que o episódio mostra os riscos em atender aos pedidos motivados pelo apadrinhamento político. "Acho que essa cautela tem de ter. O governo de Minas Gerais é a referência hoje no que diz respeito à administração de qualidade, à meritocracia", disse.

Ainda assim, Aécio entende que a indicação política não pode, por si só, ser vista como uma ilegalidade: "O que ninguém pode esperar é ser instrumento para interesse de terceiros, de interesses que eu diria do campo do ilícito e não da política, agora o cuidado com a indicação tem de ter."

'Bola de cristal'. O senador, contudo, disse que, nesse caso, fez o que faria "dez outras vezes". "Indiquei à Secretaria, o currículo era compatível. O brasileiro não tem bola de cristal para imaginar as ligações do seu Demóstenes", insistiu. "Indicação do seu Demóstenes credenciava o indicado, um ano se passou e fomos surpreendidos com a ligação desse senador com a contravenção." Para Aécio, o colega "violentou a confiança da Casa". "Há um ano, ninguém poderia imaginar. Eu me sinto traído na confiança", insistiu.

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