Aécio e Dilma ainda tentam trilhar caminho de FHC e Lula

Aécio e Dilma ainda tentam trilhar caminho de FHC e Lula

Especialistas falam se quem for eleito no domingo já poderia ser considerado uma liderança nacional

Julia Affonso, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2014 | 03h00

Se for reeleita no 2º turno deste ano, Dilma Rousseff (PT) será a terceira presidente a emendar um mandato no outro. Caso a vitória seja de Aécio Neves (PSDB), ele será o primeiro a superar um candidato à reeleição no País. Esses predicados são suficientes para transformá-los em líderes nacionais? Para cientistas políticos, seja qual for o nome mais votado no domingo, o eleito ainda tem um caminho a trilhar para alcançar o patamar de seus antecessores Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

O antagonismo entre os dois ex-presidentes tomou proporções maiores nesta disputa em relação às três eleições presidenciais anteriores. Tanto Lula quanto FHC se viram protagonistas de declarações polêmicas ou usadas pelos adversários para atingir os respectivos candidatos presidenciais já no dia seguinte ao 1º turno. Uma entrevista na qual o tucano disse que o PT cresceu nos grotões do País, com os votos dos "menos informados", foi usada como munição pelos petistas.

"É um absurdo que o Nordeste e os nordestinos sejam caracterizados como ignorantes ou desinformados por seus votos", disse Lula, na campanha. "Hoje, o nordestino anda de cabeça erguida porque não é mais tratado pelo governo como cidadão de segunda categoria."

FHC rebateu dizendo que Lula vivia de pegadinhas. "Ontem não só atribuiu aos outros frase sua - a de que o bolsa escola era esmola- como quer transformar uma categoria do IBGE, nível educacional, em insulto. Daqui a pouco ele só será ouvido em programas humorísticos", afirmou o tucano.

A discussão dos ex-presidentes se estendeu ao longo das três semanas de campanha no 2º turno. Mesmo distantes do Palácio do Planalto, os dois ainda são figuras influentes e importantes no Brasil.

"O líder percebe o tempo que o cerca e acaba construindo um marco", explica o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. "FHC percebeu que o desafio era a estabilidade, o real. O Lula percebeu que o desafio era não colocar a perder o que já tinha sido feito, portanto, enfrentou o partido e deu um passo a frente, para a questão da distribuição de renda e a inclusão social."

Para o cientista político José Álvaro Moisés, um país de mais de 200 milhões de habitantes, como o Brasil, deveria ter cerca de 10 líderes da importância de FHC e Lula. No entanto, há apenas dois.

Celeiro de novas lideranças na década de 80, o Congresso perdeu a capacidade de renovação de líderes, segundo o cientista político Ricardo Ismael.  De lá, surgiram nomes como Ulysses Guimarães, Mario Covas, Tancredo Neves, Max Freire e Pedro Simon, considerados líderes políticos nacionais. Na ditadura, sem eleição presidencial, o Senado era palco da principal votação do País e vitrine de políticos que se destacavam.

"O desafio dessas novas lideranças é ter que dialogar com um Brasil que não é mais um país da redemocratização, é diferente daquele dos anos 80 e do início dos 90. É muito mais desencantado com o sistema partidário e os políticos. Conquistar a confiança do eleitorado é um desafio muito maior", afirma Ismael.

Passado e futuro. O déficit, segundo especialistas, é consequência do funcionamento do sistema político e foi acentuada pelas mortes de três nomes de uma mesma geração: o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), o ex-governador de Sergipe Marcelo Déda (PT) e o ex-deputado federal Luís Eduardo Magalhães (antigo PFL, atual DEM).

"Eles tinham características de líderes. Eram de gerações muito próximas, seriam os substitutos de Lula e FHC", afirma Melo.

Para os cientistas políticos, a renovação das lideranças políticas no País está em crise há cerca de 20 anos. E a morte de Campos em um acidente aéreo em 13 de agosto, em Santos (SP), jogou luz sobre o problema que também atinge muitas democracias no mundo.

"Um sistema político que parece muito negativo, indigno para a maior parte da população, não forma novas lideranças, não atrai os jovens para entrarem na política", explica Moisés.

Campos, Déda e Magalhães morreram no auge da carreira, após se destacarem em seus estados. Eram líderes regionais e respeitados em seus partidos. Um infarto matou Magalhães aos 43 anos, em abril de 1998. Déda, conselheiro próximo da presidente Dilma Rousseff, morreu em dezembro de 2013, aos 53 anos, após ter sido diagnosticado com um câncer gastrointestinal em 2012.

"Eram políticos que estavam se projetando nacionalmente. Isso é uma tragédia para o País, porque você não forma estadistas em 5, 10 anos. Eles levaram anos sendo formados", afirma o ex-presidente nacional do PSB, Roberto Amaral.

Os três tinham em comum características de líderes que se projetam nacionalmente. Eram agregadores, persuasivos, pessoas acessíveis e carismáticas. De acordo com Moisés, o Brasil, por ter uma sociedade complexa, é um país que necessita de líderes deste quilate.

"Eles têm que ser capazes de entender, escutar o que essa população diversificada quer e ao mesmo tempo devolver propostas que contemplem interesses e preferências", afirma.

Na opinião do cientista político Humberto Dantas, é possível que novas lideranças surjam fora do meio político. Para ele, há uma deslegitimação da lógica de seguir 'grandes pessoas que em momentos especiais demonstram uma característica extraordinária para resolver problemas'.

"Chamam a geração Y de idealista. Você vai mais atrás daquilo que você acredita do que dos discursos e consequentemente de representantes", diz. "Pergunto a mim se na sociedade de hoje nós temos essa capacidade de continuar louvando essas pessoas."

A geração

Eduardo Campos (PSB): O ex-governador de Pernambuco morreu aos 49 anos em um acidente aéreo em Santos (SP), no dia 13 de agosto de 2014. Campos era candidato à Presidência da República nas eleições de 2014.

Marcelo Déda (PT): Governador de Sergipe entre 2006 e 2012, Déda morreu aos 53 anos, no dia 3 de dezembro de 2013. O político havia sido diagnosticado com câncer gastrointestinal em 2012.

Luís Eduardo Magalhães (PFL, atual DEM). O ex-deputado federal morreu em 21 de abril de 1998, vítima de um infarto. Aos 43 anos, ele era pré-candidato ao governo da Bahia. Dentro do partido, era apontado como o principal concorrente à Presidência da República na eleição de 2002.

O que pensam os partidos?

PT: Carlos Henrique Árabe, secretário de Formação Política do partido

"Não (há crise), embora se possa dizer que a formação de lideranças demanda períodos mais longos, que às vezes se pode caracterizar como gerações. E, talvez mais importante ainda, que lideranças mais significativas se afirmam em momentos críticos da história de um país (e mesmo do mundo) e expressam com mais clareza seus laços ideológicos e sociais. (O PT tem no partido) Além de Dilma Rousseff, dirigentes do partido, dirigentes de movimentos sociais, ministros, governadores, prefeitos, ministros (que poderiam ser lideranças nacionais). Nosso objetivo de democratizar o Estado através da reforma política e da democracia participativa deve implicar também na "deselitização" da formação de novas lideranças. Quanto mais democrático for o Estado, mais ampla e representativa será a formação de novas lideranças."

PSB: Roberto Amaral, ex-presidente do partido

"A crise é Ocidental, salta do Brasil para a Europa. Não vejo essa crise na maioria dos países da América do Sul. Há uma renovação de quadros no Uruguai, na Bolívia, no Equador, na Venezuela, à direita e à esquerda. A crise do Brasil é muito mais profunda, não é de liderança. Isso é uma consequência do que estamos vivendo, uma crise da política, da democracia representativa e das chamadas elites brasileiras. Nós temos grandes lideranças nacionais. Gostaria que nós tivéssemos mais. Mas não me recordo de outro período da história brasileira que nós tivéssemos um número elevado de lideranças. Nós só tivemos um período rico da política brasileira entre 60 e 64. Essa efervescência produziu 10, 15 lideranças."

PSDB: Deputado federal Bruno Araújo, vice-presidente do partido

"São vários os motivos (do déficit de lideranças nacionais): crise de legitimidade da própria atividade política; dificuldade de formação por conta de uma federação em crise e, principalmente, pela excessiva fragmentação partidária e falta de nitidez ideológica nos partidos políticos. Enquanto a política for uma atividade associada à sujeira, aliada a permanente sensação de impunidade e sem a reforma política, que reduza os elevados custos de campanha, aqueles que têm espírito público continuarão sendo afastados das disputas eletivas. O exercício da Presidência é uma precondição para que um grande político se torne um estatista. É motivo de muito orgulho para nós todos ter o maior estadista do Brasil moderno, entre nossos quadros: Fernando Henrique Cardoso."

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