Acusado da morte de Celso Daniel é condenado a 20 anos

Juiz diz ter levado em conta o fato de a vítima ser prefeito na época do crime para fixar a pena de Itamar dos Santos

JOSÉ MARIA TOMAZELA, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h12

O Tribunal do Júri de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, condenou ontem o réu Itamar Messias Silva dos Santos, de 32 anos, um dos acusados da morte do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT), a 20 anos de prisão em regime fechado. Santos foi condenado por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e sem dar chance de defesa à vítima. Ele participou do sequestro do ex-prefeito e o levou para um cativeiro, onde a vítima foi assassinada a tiros.

O juiz Antonio Augusto de França Hristov levou em conta o fato de a vítima ser prefeito na época e a comoção causada pelo crime para fixar a pena. Beneficiado por um habeas corpus recentemente, Santos poderia recorrer em liberdade, mas já responde a outros processos e vai continuar preso. O advogado de defesa Airton Jacob Gonçalves Filho já entrou com recurso.

O irmão da vítima, Bruno José Daniel Filho, disse que a Justiça está sendo feita, mas espera que as investigações continuem. "Tenho esperança de que algo novo venha à tona."

O advogado do réu defendeu a tese de que o crime foi político. "É melhor condenar um favelado do que colocar aqui a cúpula deste ou daquele partido", disse. Segundo ele, o acusado não poderia ser condenado por homicídio, pois não estava no local do crime e não puxou o gatilho. "Ninguém coloca aqui um José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil, condenado no mensalão) engravatado, então vamos condenar um favelado."

A acusação também recorreu à condenação do ex-ministro para convencer os jurados de que não é preciso puxar o gatilho para ser coautor de homicídio. "O Supremo entendeu que cada um fez a sua parte para chegar num objetivo comum", disse o promotor Márcio Augusto Friggi de Carvalho. Ele acusou a Polícia Federal, que iniciou as investigações, de ter feito um serviço "porco" e estendeu as críticas ao Ministério Público Federal, acusando-o de ter parado as investigações contra "pessoas que estavam acima do senhor Sérgio (Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, acusado de ser o mandante do crime)".

Discussões. A sessão foi marcada por agressões verbais entre o advogado de defesa e o promotor. Quando disse que o réu não queria a morte de Celso Daniel, o promotor interveio: "O senhor mente descaradamente". O advogado retrucou: "Esse ímpeto acusatório é sinal de desespero", e ameaçou abandonar a sessão. Foi necessária a intervenção do juiz para serenar os ânimos. Durante o interrogatório que abriu o julgamento, o réu permaneceu calado.

No fim do julgamento, o irmão da vítima fez um apelo para que a sociedade se mobilize contra proposta de emenda enviada ao Congresso que retira do Ministério Público a prerrogativa de fazer investigações. "Isso representaria um tremendo retrocesso", disse.

Celso Daniel foi sequestrado no dia 18 de janeiro de 2002 quando saía de um jantar. O empresário e amigo Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, estava com ele quando o carro foi fechado e a vítima foi sequestrada. Ele foi assassinado dois dias depois. Na época, o inquérito apontou que ele havia sido morto por engano, mas a família solicitou a reabertura das investigações. Concluiu-se depois que o crime havia sido premeditado. O empresário faria parte de um esquema de corrupção na prefeitura de Santo André. De acordo com o promotor, o julgamento de Sombra deve ocorrer no ano que vem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.