Acordo impede novas apurações da CPI

Base governista decide encerrar investigação e prorrogação servirá apenas para a apresentação do relatório; oposição reclama de 'vergonhosa pizza'

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2012 | 02h08

Um acordo entre os líderes da base governista enterrou de vez ontem os trabalhos da CPI do Cachoeira, que serão concluídos até o fim deste ano. A estratégia dos aliados do Planalto é evitar novas investigações das ramificações do esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com a empreiteira Delta. A oposição acusa os governistas de promoverem uma "vergonhosa pizza" e uma "farsa" com o fim da CPI.

Prevista para acabar neste domingo, a CPI vai se estender oficialmente até o início do recesso parlamentar, no dia 22 de dezembro. Mas estes 48 dias de prorrogação servirão apenas para que o deputado Odair Cunha (PT-MG) apresente o relatório final com as conclusões das investigações, que se arrastam desde maio. "Quero apresentar o meu relatório no dia 20 de novembro", disse Cunha.

Até o início da noite de ontem 223 deputados e 34 senadores haviam assinado o pedido para prorrogação da CPI até dezembro. O pedido foi protocolado ontem na Mesa Diretora do Senado. Não deverá ocorrer mais nenhuma reunião da CPI daqui até a data de apresentação do relatório.

A oposição defendeu a continuidade dos trabalhos por mais seis meses (180 dias). Mas não conseguiu apoio suficiente - são necessárias, no mínimo, as assinaturas de 171 deputados e 27 senadores. "Não temos como chegar a esse montante de assinaturas. No máximo, vamos conseguir entre 125 e 130 assinaturas de deputados", admitiu o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Quebra de sigilo. Para sepultar de vez a CPI, os integrantes da comissão aprovaram ontem o adiamento da votação de mais de 500 requerimentos de quebras de sigilo bancário, telefônico e fiscal. Esses requerimentos eram essenciais para que a CPI avançasse nas ligações da Delta com empresas fantasmas, que abasteceram o esquema comandado por Cachoeira. Foram 17 votos favoráveis ao adiamento proposto por Odair Cunha e apenas 9 contrários.

A suspeita é que pelo menos 13 empresas, que não tiveram o sigilo quebrado e fizeram negócios com a Delta, façam parte do esquema de Cachoeira. "As investigações indicam que o Cachoeira é parte da organização criminosa e o cabeça do esquema é a empreiteira Delta", afirmou o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).

"O que está sendo feito agora é o tratoraço regimental", reclamou Lorenzoni, diante da decisão. "Estamos jogando o lixo para debaixo do tapete e o lixo está fedendo", emendou o senador Pedro Taques (PDT-MT).

Cabral. Os oposicionistas também voltaram a insistir ontem na convocação do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, do PMDB. O pedido de convocação do governador, que é amigo de Fernando Cavendish, principal acionista da Delta, já foi rejeitado anteriormente.

"Quando foi negada a convocação do governador Sérgio Cabral, para mim ele passou a ser o principal suspeito da construtora Delta. O Cabral foi blindado", acusou o líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PR).

Imediatamente, o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ) saiu em defesa do governador, considerando a fala de Bueno uma "leviandade", e iniciando um bate-boca com o líder do PPS. "O governador não foi convocado porque nas milhares de interceptações telefônicas não há nenhuma citação ao nome dele. O que existe é uma relação pessoal do governador com o Fernando Cavendish", disse Picciani, com o dedo em riste para Bueno. "O Picciani é do grupo que blinda a Delta", rebateu o líder do PPS. "Quero lamentar profundamente o desrespeito do deputado Onyx. Não nos prestamos a blindar quem quer que seja", retrucou o peemedebista.

Eleições. A CPI do Cachoeira está paralisada há dois meses sob o argumento de que o período eleitoral poderia contaminar as sessões e as investigações da comissão. Nesse período, a CPI ouviu apenas o depoimento do deputado Carlos Alberto Lereia (PSDB-GO) sem avançar nas apurações.

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