Ação na cracolândia já pauta debate eleitoral em São Paulo

A tentativa coordenada do governo e da Prefeitura de São Paulo de colocar um fim à cracolândia lançou o combate ao crack como primeiro tema da campanha eleitoral na capital paulista. A mudança relega a segundo plano assuntos que costumam pautar a disputa, como transportes e habitação. Desde já, o PT usa os episódios de violência policial para classificar a ação como "mal planejada", enquanto tucanos e kassabistas apostam no sucesso da operação para usá-la como bandeira política.

LUCAS DE ABREU MAIA, BRUNO BOGHOSSIANESTADÃO.COM.BR, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h06

Disposto a atacar a operação para emparedar seus principais adversários, o PT escalou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, na elaboração de um projeto de combate ao consumo da droga para seu pré-candidato a prefeito, Fernando Haddad.

O objetivo é mostrar, no município, sintonia com o Plano Nacional de Combate ao Crack, proposto durante a campanha nacional de 2010 e recém-lançado pela presidente Dilma Rousseff, com foco pesado no tratamento dos dependentes químicos. Para minar a ação na cracolândia, que poderia ser usada como trunfo pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) e pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD), petistas passaram a criticar os episódios de violência na região.

"A operação se mostrou exclusivamente uma intervenção contra os usuários de crack e com uso apenas de forças policiais", escreveu o ex-ministro José Dirceu (PT) em seu blog.

O partido, contudo, pode ser obrigado a evitar o assunto, caso se concretize a aliança sugerida pelo PSD ao PT, apesar da resistência dos petistas da capital. A aproximação impediria Haddad de usar a operação para atacar a estratégia do governo tucano.

Causa preocupação no partido a gafe cometida por Haddad ao condenar a ação policial na UUS, em novembro, quando afirmou que "não se pode tratar a USP como se fosse a cracolândia". Nas semanas seguintes, o ministro disse que não se arrependia da comparação, mas criticou também a falta de atenção aos usuários da droga.

Estratégia. Os ataques dos petistas se contrapõem à cautela dos tucanos na abordagem do tema. Líderes do PSDB defendem a operação na cracolândia, apesar dos casos incômodos de violência policial. "Essa ação não tem volta. Daqui a seis meses, vai estar muito melhor do que estava, então vai ser possível comparar", avalia o presidente municipal do partido, Julio Semeghini.

Timidamente, os tucanos criticam também a falta de patrulhamento nas fronteiras - responsabilidade do governo federal do PT -, que permitiria a entrada de drogas no País. Na campanha presidencial de 2010, o então candidato do PSDB, José Serra, afirmou que o problema seria resolvido "se o governo não fizesse corpo mole".

Otimista, a cúpula do PSD de Kassab acredita que a região da cracolândia estará livre das drogas antes do início da campanha e acredita que o prefeito será o principal beneficiado pela operação, caso tenha sucesso.

"O tema do crack vai entrar na campanha e ponto final", diz o marqueteiro Nelson Biondi. Na sua avaliação, o eleitor se importará mais com a sensação de que algo está sendo feito na cracolândia do que com questões como a violência policial. "Mesmo se der errado, o Kassab e o PSDB terão discurso: 'nós fizemos o que era possível. Quem tiver ideia melhor que a apresente'."

Ele usa sua experiência na campanha bem-sucedida de Beto Richa (PSDB) ao governo do Paraná, em 2010,quando o assunto também estava no âmbito presidencial. "Em todas as pesquisas que a gente fazia, havia pelo menos uma pessoa cuja família foi afetada pelo crack." Biondi diz que não sabe se os candidatos à Prefeitura poderão defender em público a internação compulsória, mas acrescenta: "Se eu fosse eles, defenderia".

Para o cientista político Fábio Wanderley Reis, a estratégia adotada pelo PT "é uma forma de criticar a condução do processo, sem se opor à ideia". Por sua vez, o posicionamento de PSDB e PSD fica condicionado aos resultados: se fracassar, e o tráfico de drogas voltar ao centro ou apenas se espalhar pela cidade, é possível que os partidos evitem o assunto. "Ninguém pode defender publicamente atirar bala de borracha em usuário de drogas."

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