Abrem-se os arquivos do mecenas brasileiro

Historiador Jorge Caldeira assume a missão de sistematizar documentação

Laura Greenhalgh, de O Estado de S. Paulo,

27 de maio de 2012 | 03h04

"O tempo passa. O menino ainda dentro do seu cestinho. Até que toma coragem e, vencendo o equilíbrio precário, coloca-se de pé. Abre a tampa do cesto e desvenda aquilo que lhe era desconhecido. O horizonte imenso." O menino dessas linhas é Walther Moreira Salles, aos cinco anos, sendo transportado em lombo de burro de Pouso Alegre a Poços de Caldas, onde iria para a escola primária. Assim é descrito (e imaginado) pelo primeiro filho do segundo casamento, Walter, que iria se tornar nome de proa do cinema nacional. Enquanto o filho cruza o centenário paterno às voltas com as pressões de um festival de cinema (Walter levou a Cannes seu novo filme, On the Road, baseado no livro de Jack Kerouac), Fernando, único filho do primeiro casamento de Walther (com Hélène Tourtois), também empresário, editor e poeta, confirma a descrição feita pelo irmão: "Se buscasse uma única razão para explicar por que meu pai fez o que fez nos negócios e no mundo da cultura, diria que foi a curiosidade. A mesma curiosidade de menino ele que nos legou e nos contamina".

A complexidade desse personagem centenário, que marcou a vida republicana, o desenvolvimento econômico do País, o panorama das artes e da literatura, e ainda se lançou numa grande plataforma cultural com a fundação do Instituto Moreira Salles (o IMS, criado em 1991), poderá ganhar contornos mais nítidos a partir de uma decisão recente dos quatro filhos de analisar em profundidade o arquivo do pai. Trata-se de um acervo com algo em torno de 20 mil documentos, de caráter pessoal e institucional, que passa a ser estudado por uma equipe de especialistas liderada pelo historiador Jorge Caldeira, autor de Mauá, o Empresário do Império. "É desafio e ao mesmo tempo um presente. Vamos lidar com essa memória sem perder o sentido original da organização e seleção feita pelo próprio embaixador, o que por si só tem valor arquivístico", explica Caldeira, cujo trabalho poderá resultar em projetos também no formato digital.

Há anos o bibliotecário Sylvio Siffert vem se ocupando da catalogação física dos documentos, guardados na sede do IMS no Rio. Lida com um arquivo basicamente em papel, além da biblioteca pessoal de Walther Moreira Salles e de objetos que pontuam sua trajetória. "A vida dele se confunde com a vida das instituições que criou ou das quais participou", avalia Siffert, sempre pronto a incorporar elementos que chegam das empresas que compõem a holding da família. "Um antigo gerente pode chegar com algum documento para o acervo, algo que acabe nos contando sobre o dr. Walther." Assim, do bilhete pessoal do gerente aos despachos oficiais, o arquivo abriga raridades como os laudos técnicos do primeiro acordo atômico Brasil-Estados Unidos. Ou a correspondência do embaixador com figuras proeminentes. Caldeira vale-se da prudência do historiador para não arriscar o valor documental do conjunto, "mas, no mínimo, é algo digno de análise".

Remontar a vida de Walther Moreira Salles a partir dos seus contatos com gente influente, do crescimento patrimonial que logrou e dos rodopios mundanos que fez, ainda parece pouco para os quatro filhos. A ideia é ir mais fundo. É tentar abraçar uma personalidade carismática que não cabe num único escaninho e tem lá suas contradições. Por exemplo: ao mesmo tempo em que transitava num campo político mais conservador, dr. Walther, ou o "Embaixador", como preferia ser chamado, era capaz de servir a um governo considerado esquerdista como o de Jango. No campo empresarial, embora sendo uma cabeça pró-mercado, tinha ao mesmo tempo um olhar voltado para o interesse nacional. "Pode ser definido como um liberal não ideológico. Sobre o pensamento econômico dele, diria que era pelo livre comércio, pela não intervenção e pela inserção do País no mercado global. Mas não lhe passava ter comportamento especulativo", avalia o filho Pedro, para quem o pai jamais foi um executivo de banco, preferindo criar, a tocar, os negócios.

Cultura. Os filhos Fernando e o caçula João, documentarista premiado e fundador da revista Piauí, acompanharam o mergulho que o pai fez no mundo cultural, ao se desligar banco em 1991. E, aqui, não se vê traço de conservadorismo ou ortodoxia. Homem de referências estéticas elevadas, fez-se amigo de artistas de vanguarda, escritores, astros de cinema e até ídolos pop, como Mick Jagger, a quem hospedou no Brasil. A literatura e Poços de Caldas selam um pacto de amizade por toda a vida com Antonio Candido, um intelectual socialista. Também foi amigo de Chateaubriand, e não por pressão deste, doou obras capitais para o acervo do MASP - de mestres renascentistas, como Bellini e Rafael, a Pablo Picasso.

Seu mecenato cultural só fez crescer. Depois de inaugurar a Casa de Cultura de Poços de Caldas e fundar o IMS, levou o instituto para Belo Horizonte e São Paulo, integrou à entidade a bela Casa da Gávea, investiu em obras no campo da iconografia brasileira (hoje o IMS tem o principal acervo privado do continente). "Apostar na excelência da fotografia, na passagem do século 19 para o 20, foi decisão dele. Sabia que ali o Brasil se posicionara no topo de uma manifestação artística e resolveu resgatar essa produção", confere João.

Presidido até alguns anos pelo filho Fernando, com direção do também poeta Antonio De Franceschi, o instituto supriria a lacuna de fortunas críticas com os Cadernos de Literatura. Hoje presidido por João, com direção do jornalista Flávio Pinheiro, prepara-se para ter nova sede em São Paulo, na av. Paulista, cujo projeto sai de um concurso para arquitetos. O IMS continua avançando na preservação da memória da música popular. Não por acaso, vêm de lá os acordes de inéditas composições de Pixinguinha, que só agora chegam aos ouvidos e corações brasileiros.

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