Bruno Paes Manso, Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h02

Em vez das palavras de ordem acompanhadas por batuques, sete carros de som amplificavam vozes roucas de diretores de sindicatos e centrais. No lugar das mensagens individuais escritas em cartolinas, bandeiras feitas em gráficas e grandes balões de lona no ar. As vestes pretas, as máscaras de gás e os piercings dos manifestantes de junho foram substituídos por camisetas de categorias profissionais, bonés e coletes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Força Sindical.

Ontem na Avenida Paulista o estilo vintage predominou em relação à estética alternativa dos movimentos horizontais e autonomistas que tomaram a cidade no mês passado. O estilo retrô atingiu o ápice quando a canção Roda Viva, de Chico Buarque, foi tocada em um trio elétrico que acompanhava o público na Rua da Consolação.

"Creio que também há uma diferença política importante. Pela primeira vez o eixo da pauta foi voltado à ampliação dos direitos trabalhistas", disse Francisco Donizete, de 54 anos, integrante do sindicato dos professores. Para Donizete Cunha Felipe, de 40 anos, integrante do PCdoB e coordenador do Movimento de Moradia, faltou foco aos estudantes. "A reforma urbana é a nossa principal bandeira, mas saúde, trabalho e transporte deve ser prioridade", disse ele, que em 1992 esteve na Paulista pedindo o impeachment de Fernando Collor.

Após um mês de protestos com novas táticas e estética, a caminhada parecia uma volta aos anos 1980 e 1990, quando sindicatos e partidos lideravam os movimentos populares. Até a leve fragrância de maconha sumiu, substituída pelo cheiro de churrasquinho de ambulantes.

Às 11h, um trio elétrico parou no Masp para os discursos breves dos diretores, que não deveriam exceder três minutos. Claro que o prazo não era respeitado. Por 4h, cerca de 60 figurões sindicais falaram ao microfone, enquanto manifestantes descansavam e almoçavam. Foi possível detectar uma ponta de mágoa nos sindicalistas, que parecem ter se sentido alijados dos protestos de junho. "Aqui pode bandeira. Aqui pode sindicato. Aqui pode partido. Estamos na Paulista há mais de 30 anos", discursou um deles.

O público (que chegou de ônibus ou vans bancadas pelas entidades) ficou abaixo do esperado. "A essa altura eu já teria vendido 200 camisetas. Hoje, foram só 50", disse Hamilton Alen, que há cinco anos vende camisetas com estampas de foice e martelo, Lenin, Che Guevara, Rosa Luxemburgo e John Lennon.

Quando os discursos acabaram, às 15h, o mestre de cerimônias anunciou o fim da festa e desejou que todos voltassem em paz para suas casas. Parte seguiu para a Praça Roosevelt, mas antes das 19h o ato se dispersou, sem confronto com PMs ou bombas de gás. Tudo muito vintage.

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