A VISÃO DO IBRE/FGV: Intervencionismo é marca de programa

A inclinação intervencionista do coordenador do programa econômico de Ciro Gomes, Mauro Benevides, vai longe, abrangendo juros e câmbio

José Júlio Senna, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2018 | 00h14

O programa de Ciro Gomes caracteriza-se pela centralização e intervencionismo excessivo. Temos um problema de desemprego? Entreguemos o assunto ao Banco Central e subordinemos tal instituição à Presidência da República. A dívida de pessoas físicas cresceu muito, e seus nomes foram para o SPC? Deixemos essa questão aos cuidados do poder central, que coordenará uma ampla renegociação das dívidas, com descontos e em melhores condições que as anteriores. Quem financiaria? Os bancos públicos. 

A propensão a tratar o governo como o grande solucionador direto dos problemas nacionais tem presença disseminada. O BNDES teria seu “protagonismo” retomado, envolvendo a definição de “grandes complexos prioritários”. Bancos públicos cuidariam também de operar para reduzir os spreads bancários. 

Por certo, dar ao BC um mandato dual, voltado para o controle da inflação e do desemprego, dificultaria o cumprimento tanto de um quanto de outro objetivo. O esquema funciona bem nos Estados Unidos, devido a enorme credibilidade do Federal Reserve (Fed). Programa governamental de renegociação de dívidas privadas geralmente não faz sentido, pois estimula endividamento adicional e gera demanda por novas intervenções. Quanto aos dois últimos exemplos, são medidas a que já se recorreu, com maus resultados. 

A inclinação intervencionista vai longe, abrangendo juros e câmbio, variáveis bem menos manipuláveis do que normalmente se imagina. Afinal, o juro básico não pode afastar-se muito do nível neutro, determinado fora do alcance do Banco Central, e eventual artificialismo cambial será sempre insustentável. 

Esses foram alguns pontos abordados nesta terça-feira, 18, na sabatina que o Estado e o FGV/Ibre fizeram com Mauro Benevides. Para ele, porém, mandato dual para o BC é o que há de mais avançado no mundo. Se ninguém reclama quando se refinanciam dívidas empresariais, por que motivo criticar refinanciamento de dívidas pessoais? Não cabem comparações entre medidas agora propostas e outras de governo anterior, pois subsídios em operações do BNDES serão explicitados no orçamento. 

Por fim, Benevides argumenta que à semelhança do Copom, deveria haver um comitê para tratar de intervenções no câmbio. Ora, é exatamente algo assim que deveríamos evitar, para não revelar desconsideração pelo regime flexível. 

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