A ÚLTIMA FRONTEIRA DA 'MARTOLÂNDIA'

Em Parelheiros, eleitores fieis da ex-prefeita questionam opção de Lula por Haddad

JULIA DUAILIBI / TEXTO , MARCIO FERNANDES / FOTOS, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h03

A 40 km da Prefeitura de São Paulo, numa região do extremo sul da capital paulista, mais próxima do mar que do centro da cidade, a dona de casa Nilanilva Francisca André de Lima, de 55 anos, caminha no final da tarde de sexta-feira por uma rua recém-pavimentada de Vargem Grande, em Parelheiros.

De casaco vermelho, duas sacolas de plástico em uma mão e uma latinha de alumínio na outra, demonstra surpresa com um fato político da semana. "Não acredito nisso, não! Não eram amigos, os dois?", comenta sobre o pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a senadora Marta Suplicy (PT) desistisse da candidatura à Prefeitura em 2012. "Com um amigo assim, não precisa nem de inimigo", diz num sorriso malicioso.

Nilanilva e a maior parte dos 140 mil habitantes da região formam o maior eleitorado da petista na capital, em termos proporcionais. Em 2008, Marta teve seu melhor desempenho eleitoral em Parelheiros, que, com o distrito de Marsilac, tem 25% dos 1.507 km² da cidade e densidade demográfica pouco maior que a da Holanda. De cada dez eleitores do segundo turno, oito votaram na ex-prefeita, que foi derrotada pelo prefeito Gilberto Kassab. "Votaria de novo. A melhorzinha foi ela. Mesmo perdendo a bichinha veio aqui agradecer. Tadinha, mas fazer o quê?", lembra Nilanilva.

Em 2004, ao tentar a reeleição, Marta teve em Parelheiros sua maior votação em 1.º turno até então: 64%. Quatro anos depois, quando o seu eleitorado se reduziu em quase toda a cidade, obteve lá 70% dos votos válidos no 1.º turno.

Quem? Se Marta é estrela no extremo sul paulistano, o ministro Fernando Haddad (Educação) é um nobre desconhecido. "Quem é esse malandro que não deixa ela ser candidata?", pergunta Nelson José, de 63 anos, em Vargem Grande. "Ninguém conhece", diz o metalúrgico Fernando Carlos, de 33 anos.

O projeto Haddad é uma criação de Lula para chegar à classe média, setor em que Marta, com uma rejeição de cerca de 30%, perdeu densidade eleitoral.

"Haddad não vai fazer nada para a gente, tem cara de rico", diz Dacília Melo, de 51 anos, conselheira tutelar e fundadora de uma associação que cuida de 20 crianças carentes no Grajaú. E Marta? "Ela tem cara de rica, mas o coração é de pobre", afirma a militante do PT. "Antes, achava ela uma loira chata. Dizia que a loira não estava com nada. Era uma ricona do Morumbi", conta.

Em postes do bairro, propaganda eleitoral antiga dos Tatto, família de parlamentares petistas que tem a zona sul como base eleitoral. Por lá, vale o apelido de "Tattolândia". Dacília diz que se houver prévias no PT, não votará em Haddad, mas no deputado Jilmar Tatto.

"Lula tem que pôr gente como a gente. Nunca vi esse homem. É filiado no PT desde quando?", pergunta Dacília. A colega de associação Maria Aurilene Cavalcante, de 39 anos, quieta até então, dispara. "Quem é esse Haddad aí?".

"Se Haddad disser que vai fazer CEU aqui, vamos pensar", pondera Dacília. "Olha lá as crianças brincando, e os marmanjos se drogando", diz ela, apontando para um descampado, onde funciona uma quadra de futebol improvisada.

Os eleitores dizem que, apesar de não conhecerem Haddad, votarão nele se Lula pedir, assim como fizeram com Dilma Rousseff. "A doença do Lula vai ajudar. O pessoal tem muito respeito por ele. Ele é como um mágico. Você dá um passo aqui, ele dá 200. Falou que acabaria com o DEM e acabou", diz Antônio Poltela dos Reis, de 57 anos, o Marrom, ligado ao vereador Alfredinho (PT).

Para o presidente municipal do PT, vereador Antonio Donato, o desafio de Haddad é grudar neste eleitorado. "Dilma ganhou lá. Então o PT é forte lá. Nessas regiões, o apoio de Lula e Marta serão decisivos para Haddad."

Próximas a parlamentares, lideranças locais, que prestam favores às comunidades, também influenciam o cenário eleitoral. "A militância acompanha a liderança da região", avalia Reis. Dacília, que diz ter mais de cem votos no bairro, conta que trabalhou para a eleição de Kassab em 2008: "Fiquei desgostosa com uma briga no partido. Mas sempre votei na Marta".

Malufismo. O extremo sul paulistano tem a renda média mais baixa da cidade: R$ 928, segundo dados de 2008 do Observatório Cidadão da Rede Nossa São Paulo. Também apresenta um dos maiores índices de criminalidade: 17 assassinatos por cada cem mil habitantes, em 2009. Em Pinheiros, onde Marta teve sua pior votação, a renda média é a maior da capital, R$ 2.764, assim como os índices de violência são os menores: 1,93 assassinato por cem mil habitantes. Em 2008, ela teve apenas 11% dos votos no Jardim Paulista, área administrativa de Pinheiros. "Playboy vota no Serra ou Alckmin", afirma Carlos.

O eleitor da "Martolândia" ignora polêmicas da gestão da ex-prefeita (2001-2004), como criação de taxas, que lhe renderam o apelido de "Martaxa", ou obras viárias consideradas caras e equivocadas - o que lhe custou votos da classe média. Questionados sobre a razão do voto, os martistas citam a melhoria no transporte e projetos sociais como os CEUs. "Na minha região não melhorou nada", rebate uma crítica da ex-prefeita, Adriana Herculano, de 30 anos.

Antes malufista, o extremo sul se rendeu ao PT. "Tínhamos muita dificuldade de fazer campanha lá. Mudou com ela. A partir daí, a votação do PT lá foi crescente", diz Alfredinho. "O malufismo perdeu capacidade de diálogo e houve substituição por outras forças. Uma delas foi Marta. A população tende a carimbar as conquistas sociais. Carimbava antes com o Maluf, depois com o PT", diz o cientista político Marco Aurélio Nogueira.

Nos anos 80, o extremo sul de São Paulo foi tomado por lotes irregulares. A paisagem bucólica, com cavalos e cabras, se mescla ao cenário precário, onde ainda hoje falta água potável. Segundo informe da Prefeitura sobre Parelheiros, no site oficial, a "exponencial" taxa de crescimento demográfico "inviabiliza qualquer tipo de planejamento municipal".

Áreas da "Martolândia" seguem invisíveis, inclusive nas caravanas de anos eleitorais. Marta e Lula não passaram por lá, e Haddad, provavelmente, não passará. "Quando tem campanha, os políticos não deixam entrar para cá. Tem muita poeira aqui", diz Dacília, que após breve silêncio conclui: "Aqui só entram mesmo para multar". / COLABOROU DANIEL BRAMATTI

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