'A solicitação de doação veio pelo ministério'

Sócio da Intech confirma que doou R$ 150 mil para o PT, mas se contradiz ao explicar quem fez o pedido por dinheiro

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2012 | 03h06

"A solicitação de doação veio pelo Ministério da Pesca, é óbvio", contou o principal sócio da Intech Boating, fabricante das lanchas-patrulha encomendadas pela pasta. O publicitário paulista José Antônio Galízio Neto confirmou, em entrevista ao Estado por telefone, ter doado R$ 150 mil ao comitê financeiro do PT, nas eleições de 2010. Depois de falar do pedido feito pelo ministério, mudou a versão e passou a atribuir a solicitação a um político local. Leia a seguir trechos da entrevista:

O Tribunal de Contas da União questiona sobretudo a falta de serventia das lanchas, já que o Ministério da Pesca não tem competência para fiscalizar a pesca ilegal.

Espera um pouquinho. Você quer a minha opinião como cidadão ou como empresário? Como cidadão, concordo. O ministério não tinha competência para fazer fiscalização. E, pior, não tinha aptidão. No momento da elaboração do projeto, informaram que a competência da fiscalização iria para a Pesca. Isso eu ouvi do gestor do contrato e numa conversa rápida com o ministro. Mas houve resistência. Como empresário, fui convidado para participar de uma licitação e vender barco. Eu vivo disso.

O negócio com o ministério foi importante na vida da empresa?

A empresa é recente, esses 28 barcos deram o "start". Não foi por indicação política que cheguei a essa concorrência. Foi uma coincidência almoçar com um coronel da Polícia Militar, Ele visitou o estaleiro e ficou impressionado. Meses depois, voltou com uma comitiva da Polícia Militar e disse que o Ministério da Pesca faria uma licitação. O convite para o Ministério da Pesca foi normal.

A relação dos sócios da empresa com os ministros Altemir Gregolin e Ideli Salvatti é próxima?

Não. À Ideli, fui apresentado uma vez, num barco que ela entregou em Florianópolis (SC) para a Polícia Federal. E numa cerimônia em que estavam ela e o ministro da Justiça, no Corpo de Bombeiros. Com o Gregolin, estive umas três vezes. Não teve direcionamento na licitação, como afirma o Tribunal de Contas, teve capacitação.

O ministério encomendou as lanchas, mas nem tinha o que fazer com elas.

É pior do que isso. Eu terminei os barcos e eles disseram "não podemos receber". O ministério me deve quase R$ 400 mil porque fiquei guardando os barcos por quase um ano, um ano e pouco, mantive os barcos limpos e funcionando, foram feitas as manutenções durante esse período.

O Tribunal Superior Eleitoral registra uma doação de campanha da empresa na eleição de 2010.

É, eu depositei na conta do partido. Aí fiz uma besteira, o contador falou sobre o limite de 2% do faturamento, eu me antecipei, calculei o faturamento de 2010, e doei R$ 150 mil. Para minha surpresa, recebi notificação da Justiça eleitoral dizendo que doei R$ 17 mil a mais.

O sr. doou por afinidade com o partido?

Eu fui um dos fundadores do partido. Fundador, não, fui um militante na fundação do partido, em São Bernardo do Campo (SP). A doação não foi feita pela afinidade ao partido. O partido era o partido do governo. A solicitação de doação veio pelo Ministério da Pesca, é óbvio. E eu não achei nada demais, porque no governo para quem eu estava trabalhando, faturando naquele momento R$ 23 milhões, R$ 24 milhões, não havia nenhum tipo de irregularidade. E acho até hoje que, se precisasse fazer novamente, eu faria. Doei o que eu legalmente, declaradamente, podia doar ao partido. Na verdade, quem veio pedir, jamais vou dizer o nome, não me lembro se foi um vereador, um deputado. Com a insistência, falei: tudo bem, vou fazer a doação para o partido.

Mas o sr. acabou de dizer que o pedido veio do ministério...

Não, da Pesca não, foi um político local, que na verdade estava querendo se aproveitar do negócio. Não, não, imagina. Um vereador, ou candidato a deputado, uma coisa assim, que graças a Deus perdeu a eleição. / M.S.

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