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A sentença de Guimarães

A afirmação do líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), de que não há como separar o partido dos seus dirigentes condenados e presos é, com razoável certeza, a única entre tantas produzidas pela legenda em reação ao mensalão com a consistência de um diagnóstico diariamente renovado pela insistência em eleger culpados externos para seu infortúnio político.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2013 | 02h07

Abstraída a motivação de cobrança por solidariedade interna que a inspira, a frase soa como uma segunda sentença, esta eleitoral, que anuncia a prevalência, na campanha, da versão do partido como vítima das elites conservadoras, em detrimento da condenação dos atos reconhecidos como criminosos pelo Poder Judiciário.

Ao que tudo indica, está feita a opção, certamente pela conclusão de que o posição de comando dos condenados no organograma de poder no partido, não oferece alternativa. Se não subtrai porcentual de votos significativo de seu eleitorado cativo, o episódio retira do PT a bandeira histórica da ética, frustrando o projeto de ampliação do eleitorado e, por extensão, de hegemonia política.

Tal leitura indicou ao senador Aécio Neves, já investido da candidatura independentemente de sua formalização em março, a ética na política como um ponto estratégico no discurso de campanha. Não evita o contraponto já adotado pelo PT - o cartel dos trens em São Paulo -, mas a ele se antecipa com postura em defesa da eventual condenação de correligionários que as investigações apontarem como beneficiários de corrupção.

Já a opção do PT pelo enfrentamento da decisão judicial, concentrada por estratégia na figura do ministro Joaquim Barbosa, como se a ele pertencessem os votos majoritários pela condenação, serve à conveniência de distanciar a presidente Dilma Rousseff dos fatos passados no primeiro governo do PT, sob a presidência de Lula, cabo eleitoral no qual se sustenta e sem o qual não teria sido eleita.

O desagravo em clima passional a José Dirceu na solenidade de posse da diretoria eleita do PT, sexta-feira, com as presenças de Lula e Dilma, dificulta essa meta e materializa a sentença de Guimarães, ditando uma linha defensiva para a campanha, que incorporará também o mau humor com os serviços públicos, tendente a aumentar durante a Copa do Mundo.

De qualquer forma, aparentemente a estratégia de manter Dilma à distância tem algum êxito. Ainda que 80% dos eleitores petistas condenem o mensalão e que as pesquisas indiquem 45% como o teto de sua recuperação desde junho, os 60% que desejam mudanças não as projetaram em outros candidatos.

O que poderá ser determinado pela economia, fator permanente de risco.

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