A resistência nas trincheiras de Cunha

Paulistas barraram avanço dos 'cariocas', fuzileiros que subiam pela Serra do Mar para o Vale do Paraíba

CUNHA (SP), O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2012 | 03h02

Um pequeno monumento na margem da estrada Cunha-Paraty homenageia a memória do sitiante Paulo Virgínio, herói e mártir da Revolução de 1932. Ele foi torturado e morto pelas tropas de Getúlio Vargas, conforme consta na tradição oral, por ter se negado a revelar posições das forças constitucionalistas. Paulo Virgínio e outros agricultores foram presos e interrogados para fornecer informações que nem todos tinham.

O monumento fica a 2 quilômetros da Pousada dos Anjos, antiga Casa da Aparição, onde as tropas legalistas instalaram seu comando e montaram um hospital militar, depois de expulsar os rebeldes paulistas. Os moradores das redondezas fugiram para o mato ou refugiaram-se em cavernas, enquanto seus bens eram confiscados.

"As tropas de Getúlio comeram as criações e acabaram com os mantimentos, com a promessa, jamais cumprida, de que pagariam tudo depois", relata o fotógrafo Marcos Santilli, dono da Pousada dos Anjos. Ele e sua mulher, Kátia, pesquisam documentos e ouvem testemunhas - filhos e netos de revolucionários - para reconstituir a luta de Cunha contra a ditadura.

Começaram a se interessar oito anos atrás, quando foram reformar a casa colonial, uma construção térrea de pau a pique, que havia servido de hospital. Acharam um fuzil enferrujado num barranco próximo e cápsulas enterradas numa área vizinha da jabuticabeira onde, nos anos 1990, foram localizados dois corpos de soldados constitucionalistas.

O fuzil, as cápsulas e mais algumas armas de guerra vindas de outros lugares estão expostos na biblioteca da pousada, ao lado de livros e documentos sobre a Revolução. Outras peças, como telefones, baionetas, capas de morteiros e capacetes de aço recolhidos na região, foram levados para o Museu Francisco Veloso, fundado e dirigido em Cunha pelo professor aposentado João Alves de Oliveira Veloso, historiador da cidade.

"Os cariocas não passaram de Cunha, só avançaram no fim de setembro ou início de outubro, quando foi assinado o armistício", informa Veloso. Os legalistas, todos chamados de cariocas, eram fuzileiros navais, tropa de elite da Marinha. Desembarcaram em Paraty e tentaram subir a Serra do Mar, pouco mais de 30 quilômetros intransitáveis. Como os veículos militares empacaram na estrada de terra, as tropas transportaram o armamento em lombo de burro, forçando os moradores da zona rural a ceder seus animais.

Caminho. Distante 45 quilômetros de Guaratinguetá (SP), Cunha foi ponto estratégico durante a luta - estava a meio caminho da Frente Norte dos constitucionalistas, entre o litoral fluminense e o Vale do Paraíba, onde as forças paulistas, estacionadas em Cruzeiro, esperavam avançar para o Rio, então capital do País.

Houve combates na serra, como atestam trincheiras em ruínas nos terrenos da Estalagem Shamala, outra pousada na margem da rodovia. Foi por ali que lutou o poeta Guilherme de Almeida, ao lado de seu irmão Tácito de Almeida e de Múcio Leão.

Guilherme de Almeida e Paulo Virgínio estão sepultados no Mausoléu dos Heróis de 1932, no Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo. / J.M.M.

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