A renda que se amplia

Ao retornar todo para o comércio e a indústria, dinheiro do Bolsa Família ajuda a economia a andar

Iuri Dantas, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h00

Brasília - O maior programa de transferência de renda do planeta foi criado como uma ajuda do governo para os mais necessitados, mas acabou ajudando o Produto Interno Bruto (PIB) e auxiliando o País a atravessar momentos de estresse econômico, como os meses de seca no Nordeste e a crise financeira internacional iniciada em 2008. Segundo economistas - que neste caso alcançam um raro consenso de opiniões a favor do programa- , há fundamentos teóricos que explicam o sucesso da iniciativa.

Ao transferir dinheiro do Tesouro para os mais pobres, o governo incentiva necessariamente o consumo doméstico. Isso se dá por um mecanismo conhecido no jargão econômico como propensão marginal ao consumo. No caso dos beneficiários, essa propensão é de 100% - ou seja, cada real repassado tende a ser gasto e não poupado. O que significa que todo o dinheiro do Bolsa Família volta para a economia, seja como imposto pago pelos beneficiários em compras ou pelo maior volume de vendas do comércio.

 

 

Não apenas isso. A tendência de gastar o benefício comprando itens no varejo gera o chamado “efeito multiplicador”, pelo qual diversos setores se beneficiam.

Isso ocorre, por exemplo, quando um beneficiário do Bolsa Família decide gastar R$ 2 na compra de um pão francês. O dono da padaria vai transferir esses R$ 2 para a indústria de moagem de trigo, que vende a farinha usada no pão. O industrial vai usar o dinheiro para pagar seus funcionários - e estes gastarão o salário comprando roupas, comidas, ou ir ao cinema, criando novos círculos virtuosos na economia.

Esses dois movimentos, que destinam recursos a compras e não à poupança, e o efeito multiplicador na economia foram vitais para preservar o ritmo do comércio varejista na crise de 2008, porque se tratava de recursos que não dependiam de um vínculo trabalhista. Ou seja, mesmo em caso de desemprego, o beneficiário continua recebendo o auxílio.

Também foram vitais para auxiliar famílias nordestinas nas estiagens dos últimos anos, já que se tornou possível adquirir água e outros bens de primeira necessidade com o dinheiro dó programa oficial do governo.

Pequenas cidades.Segundo Reginaldo Nogueira, professor de economia do Ibmec-MG, o Bolsa Família vem causando maior impacto em pequenas comunidades, transformando-as em receptoras líquidas de recursos federais. Uma pequena cidade com alta cobertura do Bolsa Família, assim, passa a receber na forma do benefício mais dinheiro da União do que o que paga de impostos. A constatação acabou convencendo o governo a desistir de programas sociais baseados no repasse de comida.

“Para localidades pequenas com porcentual grande da população recebendo, o efeito não é trivial. Ele passa a ter efeito relevante na economia local”, constatou Nogueira. “Esse sempre foi um dos argumentos de programas de transferência de recursos em contraposição à transferência de alimentos, porque estimula a produção de alimentos localmente.”

Em sua avaliação, no entanto, o Bolsa Família funciona como um “aliviador” e não “solucionador” do problema, se não vier acompanhado de políticas para que os beneficiários se livrem do auxílio federal após algum tempo.

“De qual maneira isso pode se tornar sustentável para que a sobrevivência da economia não fique permanentemente dependente dessas transferências federais? Não pode ter economias que só sobrevivem por causa disso, porque passa a ser um problema”, disse. “O que fazer? Geração própria de renda. Passa muito pelas políticas de microcrédito, educação, capacitação técnica para empreendedores do local e outras alavancas desse tipo.”

Paulo Henrique Landim Junior, hoje diretor-financeiro de uma empresa privada e estudante de mestrado em Administração em Harvard, nos EUA, debruçou-se sobre os efeitos do Bolsa Família em pequenos municípios durante sua graduação no Insper, em São Paulo. Seu trabalho mostra o impacto do efeito multiplicador do benefício, principalmente na região Nordeste do País. Se à primeira vista há impressão de que o programa ajuda o comércio, a pesquisa de Landim Junior mostrou que os segmentos da indústria foram os que mais ganharam.

Isso se explica porque nas próprias localidades os artigos de maior necessidade, como vestuário e comida, passam a ser mais procurados e essa própria demanda cria a oferta de produtos mais “sofisticados” ou beneficiados. Como a produção local de queijo, por exemplo.

Por outro lado, ele chama atenção para um dos riscos atrelados ao programa. “Todas as políticas públicas do governo federal passam pelo estímulo ao consumo, sem dar atenção ao investimento”, afirmou. E adverte: essa abordagem serve de combustível para a inflação.

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