A primeira vítima

No último fim de semana o PT realizou mais um de seus muitos encontros para discutir as mesmas questões e chegar à conclusão de sempre: é vítima de perseguição injusta e implacável por parte da "direita" interessada em desestabilizar o governo e interromper o projeto do partido para o Brasil.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2012 | 02h05

Não se sabe ao certo o teor das discussões, porque o PT desde que assumiu a Presidência da República deixou de fazer reuniões abertas em que dirigentes e militantes costumavam dar raro exemplo de vigor partidário. Junto com o discurso em prol da ética na política, era um diferencial e tanto.

Já o primeiro após a vitória de 2002 foi realizado em São Paulo, a portas fechadas. Portanto, deles agora só se tem notícia por meio das versões e da nota oficial.

Destas transpirou a velha cantilena conspiratória, para a qual a única saída seria o tal do controle social da mídia "monopolista".

Acrescenta, a propósito do julgamento do mensalão, outra providência: uma reforma que "pegue" também o "Judiciário conservador", sem a qual não será possível "fazer o Brasil avançar", nas palavras do presidente do PT, Rui Falcão.

O Legislativo passa incólume das críticas do PT, ainda que seja a instituição que hoje gera mais desconforto na sociedade e a que dá mais motivos para ser criticada.

Não pelo partido no poder, cuja concepção de estabilidade política não tem a ver com equilíbrio institucional. Ao contrário, a referência é o grau de domínio que o partido exerce sobre esse ou aquele setor.

Por essa ótica, anda tudo certo no Parlamento, uma vez que é subserviente ao Executivo aparelhado pelo partido. Em suma, a democracia vai bem se tudo vai bem para o PT.

O que agrada é democrático e o que desagrada é golpe articulado pela "direita". Pouco importa o fato de que parte dos setores tradicionalmente assim identificados tenha se aliado ao governo Lula desde o início, parte tenha aderido gradativamente e os restantes estejam totalmente desarticulados.

"Direita" virou conceito de plantão para definir toda e qualquer opinião divergente. Quem não rende homenagens incondicionais ao PT é de "direita".

O Judiciário visto da perspectiva das condenações no Supremo Tribunal Federal tornou-se "conservador". Resultado de escolhas equivocadas de Lula e Dilma Rousseff que não souberam construir um perfil "progressista" para a Corte?

Não, inclusive porque nenhuma das indicações foi criticada. Ao contrário, quase todas - com destaque para Joaquim Barbosa - bastante celebradas. Qual o problema, então? A independência dos magistrados, que decepcionou o PT.

Ao constatar que não tinha ali - como não tem na imprensa - o domínio pretendido, o partido se faz de vítima. Fala da "mídia monopolista", mas persegue o monopólio. Da opinião.

Todas aquelas figuras do Parlamento que antigamente o PT diria serem de "direita" e hoje andam de braços dados com o partido não são objetos de reparo.

Não porque tenham mudado seu modo da ação ou pensamento, mas porque concordam (ou simulam concordância) e a vassalagem é o que define na novilíngua o progressista.

A verdade do que está à vista de todos é a primeira vítima. Assim na guerra como na tradução autoritária dos fatos.

Cumpra-se. A já desenhada decisão do Supremo sobre a perda dos mandatos gera um impasse óbvio. Daí a dizer que enseja uma "grave crise institucional", como querem fazer crer alguns parlamentares e gente que faz dos ataques gratuitos ao STF um esporte, parece aposta no quanto pior melhor.

Não há conturbação, há uma dúvida constitucional. Que deve ser resolvida pelo único parâmetro possível: a Constituição. A solução tem como referência a legalidade. Sobre esta a Corte tem a palavra final.

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