A meia verdade dos planos

Queixas de pacientes são os mesmos tantos na rede pública quanto para os que possuem um plano de saúde

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2014 | 03h00

Seja na rede pública, seja nos planos de saúde, as queixas de pacientes não se distinguem: demora para consultas e exames e qualidade de atendimento. “As pessoas migram para o sistema suplementar na esperança de ter mais facilidade de acesso, mas logo se dão conta de que o problema é o mesmo’’, resume o consultor Eugênio Vilaça.

As estatísticas das reclamações de beneficiários de planos de saúde comprovam as dificuldades. Em 2013, das 102 mil reclamações recebidas pela Agência Nacional de Saúde (ANS), 74 mil estavam relacionadas à cobertura. De janeiro a junho deste ano, 29,2 mil das 42,5 mil queixas se referiam ao tema. “A expansão da saúde suplementar se dá desde os anos 80. No período da inflação, os ganhos vinham de aplicações financeiras. Com a expansão do emprego, o mercado mudou: vieram planos empresariais e, num outro momento, os planos coletivos’’, conta a professora da UFRJ, Lígia Bahia.

O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Mário Scheffer atribuiu a expansão da saúde suplementar aos incentivos dados pelo governo, à leniência da fiscalização e à falta de uma boa regulamentação. “O setor cresceu de forma artificial, sem que houvesse uma ampliação compatível da rede de atendimento. O resultado está aí: filas e uma série de empecilhos para dificultar o acesso do usuário ao atendimento.’’

Tanto Scheffer quanto Lígia avaliam que a situação tende a piorar com a expansão dos planos de fachada - feitos para atrair pessoas com menor poder aquisitivo que querem escapar do sistema público. “Criou-se uma franja de falsos planos, primeiro os coletivos, depois os de falsa adesão, formados por associações fantasmas’’, diz Scheffer. Para ingressar em um plano - com mensalidade geralmente mais baixa -, pessoas formam grupos de fachada. Para operadoras, é um bom negócio: a rescisão pode ser unilateral e reajustes são negociados. “É uma bomba-relógio para o sistema.’’

Dinheiro de fora. Um fato novo é a chegada do capital estrangeiro. Companhias que adquirem operadoras brasileiras e mostram voracidade para ampliar a carteira de associados. “A pressão aumenta para expansão do setor. O problema é que não podemos basear o sistema de saúde do País em atendimento privado. E é isso que está acontecendo’’, constata Lígia.

Além do subfinanciamento, problemas de gestão e a aposta (para os analistas, incorreta) na ampliação do setor suplementar, a saúde enfrenta outros desafios. Vilaça observa que o País atravessa uma transição demográfica, com envelhecimento da população, uma transição nutricional - um em cada dois brasileiros tem sobrepeso ou obesidade - e a transição tecnológica. “Há uma incorporação muito rápida de tecnologia e uma pressão para que novos exames, novas técnicas sejam adotadas - muitas vezes antes mesmo de se fazer uma análise de custo efetividade’’, diz Vilaça.

Essas mudanças, afirma, encarecem o sistema. “Com envelhecimento, com obesidade, aumentam as doenças crônicas que exigem acompanhamento adequado e prevenção.’’ E isso, pondera, não se obtém simplesmente consultando um especialista. “Hoje, pessoas procuram um médico de especialidade na certeza de que seu problema será resolvido com uma consulta, um exame, uma prescrição de medicamento.’’

Algo que, diz o consultor, está longe de ser verdade. Estudos mostram que 70% dos atendimentos poderiam ser resolvidos na atenção primária, multidisciplinar. “Não basta um médico, é preciso fisioterapeuta, nutricionista, educação física, psicólogo, enfermeiro.’’ Vilaça afirma que somente em casos que a equipe não consegue resolver o paciente deve ser encaminhado a um especialista. “Isso evita a peregrinação do paciente. Reduz a pressão nas especialidades, racionaliza a indicação de exames. Não é isso o que vemos, nem na rede pública, nem na particular’’. 

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