A luta esquecida de Marina contra o asfalto no Acre

Resistência de candidata do PSB à pavimentação da BR-364 trouxe desgosto eleitoral em 2010

Lucas de Abreu Maia, enviado especial, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2014 | 23h00

Rio Branco - O avião em que estava Marina Silva não conseguiu pousar. A pista do aeroporto internacional de Cruzeiro do Sul a que a então senadora do PT se dirigia estava ocupada por carros e caminhões com o propósito de impedir sua aterrissagem. Era 1996 e Marina já recebera ameaças de morte; caixões com sua foto já tinham sido levados às ruas da segunda maior cidade do Acre. O motivo de tamanha rejeição era sua oposição ao asfaltamento da rodovia BR-364 - única ligação terrestre do Estado com o restante do País.

Foi a própria ex-senadora e hoje candidata do PSB ao Palácio do Planalto quem trouxe o episódio à tona nestas eleições. Quando questionada na bancada do Jornal Nacional, no fim de agosto, sobre o motivo de ter ficado em terceiro lugar no seu Estado natal no pleito de 2010, Marina justificou o desempenho medíocre com a sua oposição à obra na rodovia: “Eu já cheguei a ficar quatro anos sem poder andar na metade do meu Estado. Sabe por quê? Porque queriam fazer uma estrada sem estudo de impacto ambiental, sem respeitar as terras dos índios e as unidades de conservação. Eu não podia trocar o futuro das futuras gerações pelas próximas eleições. Eu preferi pagar o preço de até perder os votos.”

A BR-364 surgiu como parte do plano de Juscelino Kubitschek de desenvolver o Centro-Oeste e o Norte do País. Foi na década de 1950 que a floresta começou a ser desmatada para a criação da rodovia que vai de São Paulo à fronteira do Brasil com o Peru. Por mais de três décadas, contudo, o trecho acriano da estrada era de terra batida.

" SRC="/CMS/ICONS/MM.PNG" STYLE="FLOAT: LEFT; MARGIN: 10PX 10PX 10PX 0PX;" CLASS="IMGEMBED

O asfalto só começou a chegar em 1995, no governo de Orleir Cameli. A obra de pavimentação, porém, não tinha licenciamento ambiental e o Ministério Público pediu sua suspensão. A imprensa local de Cruzeiro do Sul culpou o ambientalismo de Marina Silva pela obstrução da única via de ligação terrestre da região.

Bode. A despeito de a própria Marina ter assumido a oposição à obra na entrevista, o discurso de seus aliados no Acre, hoje, é de tentar desvinculá-la do episódio. Segundo Júlio Pereira, articulador no Acre da Rede Sustentabilidade, o partido que a ex-senadora tenta criar, ela foi vítima dos “políticos tradicionais” que a teriam transformado em bode expiatório.

Seus adversários, no entanto, reiteram seu papel em incentivar a ação do Ministério Público. “Ela foi líder na suspensão do asfaltamento e isso não pode ser escamoteado”, afirma Assuero Veranez, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Acre.

Independentemente do papel que Marina tenha desempenhado à época, a maior parte dos seus aliados - e ex-aliados que ainda estão no PT - culpa a BR-364 pelo terceiro lugar que ela obteve no Acre em 2010. Embora o desempenho eleitoral de Marina nas eleições presidenciais daquele ano no seu berço político tenha sido superior à sua média nacional - 23%, ante 19% em todo o Brasil -, a votação foi considerada medíocre para uma candidata que já tinha sido eleita para o Senado por duas vezes.

Contudo, o quadro político parece ter mudado. De acordo com a última pesquisa do Ibope no Acre, divulgada na sexta-feira, Marina tem hoje 49% das intenções de voto. A presidente Dilma Rousseff (PT) aparece com 25%.

“É muito difícil ser profeta em sua própria terra”, declarou Marina na entrevista ao Jornal Nacional. Quase duas décadas depois de ter sido impedida de aterrissar na segunda maior cidade do seu Estado natal, no entanto, a candidata do PSB está em vias de desmentir o ditado bíblico.

Tudo o que sabemos sobre:
EleiçõesMarina SilvaPSBAcreBR-364

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.