A insatisfação é geral

Membros de diversas classes sociais reclamam dos mesmos serviços públicos fornecidos pelo Estado

Lisandra Paraguassu e Angela Lacerda , O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2014 | 03h00

Servidor aposentado, morador do Plano Piloto, região de classe alta de Brasília, Rogério Bastos vive aflito com a precariedade dos transportes da cidade. Como dono de carro, sofre com os congestionamentos. Como empresário, tem prejuízos porque os ônibus vivem dando problema, seus funcionários não aparecem e ele tem prejuízo. “Nunca usei ônibus em Brasília, mas é claro que os problemas me afetam”, resume. “Se o transporte público tivesse qualidade, não estariam todos querendo ter carro particular”.

Um empresário defender bom transporte público - uma causa em comum com seus funcionários - é um comportamento mais frequente em novos tempos nos quais, dada a extensão dos problemas, uma reivindicação por melhores serviços torna-se geral. Na saúde, essa convergência aproxima a classe média - que sempre buscou bons planos de saúde -, da classe C, que passou a sonhar com esses planos, a conhecê-los e desejar menor dependência do serviço público. No caso do empresário Bastos, ele discorda também dos estímulos que o governo dá à indústria automobilística. “Não ajuda o governo ficar dando incentivo, redução de impostos”.

‘Falta tudo’. Aos 80 anos, o office-boy Luiz Soares da Silva, também de Brasília, sofre na pele o que Bastos analisa. Ele tem passe livre, mas sobram razões para queixas. “É muito ruim. A qualidade dos ônibus até melhorou, mas não se respeita horário, faltam linhas e ônibus. No entorno falta tudo, tem ônibus que dá vergonha de ver’. Se ele tivesse de pagar, gastaria R$ 10 por dia.

Em situação parecida, mas pagando, a brasiliense Gabriela Nascimento, 18 anos, chega quase sempre atrasada na escola, sem almoçar, e aguarda longo tempo em pontos onde só passa um ônibus por hora. “E quando vem, está lotado”, queixa-se ela. Tanto a estudante quanto o office-boy assistem sem esperanças à campanha eleitoral sem acreditar que um próximo governador traga soluções. ‘Eles falam muito, mas nunca se resolve”, diz Gabriela. “Cada um quer fazer tudo novo, não continua o que o outro estava fazendo.”

No Recife. A doméstica da Julia Damiana da Conceição e o inspetor de polícia Augusto Santana, moradores de Olinda, Pernambuco, também são exemplos de que a precariedade dos serviços leva pessoas de diferentes níveis de renda a discursos parecidos. Julia, de 47 anos, foi três vezes deixada na mão pelo sistema de saúde. Na primeira, passou por quatro emergências em busca de atendimento para a filha de 14 anos, picada três vezes por um escorpião. Há dois anos, Julia teve trombose e não conseguiu atendimento. Hoje, recorre ao SUS para resolver um problema de visão do filho de 9 anos. “Posso dizer que tenho sorte, pois conheço uma funcionária que coloca meu nome na lista”, diz.

Em 1988, o inspetor Augusto, já com 78 anos, teve uma experiência inviável a alguém de renda mais modesta: reuniu-se a um grupo de 40 profissionais em um plano de saúde privado. Foi uma promoção. Por bom tempo as famílias receberam um bom serviço - mas, quatro anos atrás, a empresa foi comprada. Sofrendo hoje de Alzheimer, ele é ajudado pela mulher, Maria Nicácia Lopes. “Já disseram que o nosso custo é muito alto, dá prejuízo, e querem aumentar em 70% o preço do plano”, diz Maria Nicácia. A saúde, por outros caminhos, é também um problema sem saída para os dois.

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