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A hora do aperto

Um pouco de recato no trato do mandato da presidente Dilma Rousseff por parte de seus companheiros de partido não faria mal à nossa atualmente conturbada República.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2013 | 02h06

Ainda que irascível, mal assessorada, desastrada no manejo da comunicação e de uma inabilidade política própria dos autoritários, ela é a chefe da Nação até que a próxima eleição dê, ou não, ordem em contrário.

Os gestos e palavras de seus correligionários com essa história de "volta Lula" - por mais das vezes um mero pretexto para pular do barco com medo do naufrágio - equivalem na prática a decreto de extinção do mandato da presidente antes do tempo.

Contribuem para aprofundar o desgaste. Se por cacoete de outrora, manobra combinada ou oportunismo baratíssimo, de qualquer forma soa como afronta às regras do jogo.

Dilma foi escolhida por uma maioria que teve oportunidade de examinar qualidades e defeitos da candidata ao longo de dois anos desde que foi alçada à condição de "mãe do PAC" até a eleição em outubro de 2010 e concluiu que estava perfeitamente preparada para o cargo. Muito mais que o principal oponente, José Serra, de cujo preparo nem os inimigos duvidam.

Portanto, a cigana não enganou ninguém. Descontada a repaginação no visual no meio do caminho e alguma afabilidade nas maneiras abandonada uma vez na posse do cargo, Dilma foi a mesma de sempre: na Casa Civil, na campanha, nos primeiros anos de governo.

Quando a escolheram e depois prestaram várias homenagens à sua eficiência e austeridade, todos sabiam bem o que estavam fazendo. Aí incluídos os 18 partidos que lhe deram apoio, os congressistas e os petistas.

E o que faziam? Atendiam às ordens do chefe: Luiz Inácio da Silva. Ele impôs, avalizou e ficou então combinado que Dilma era a pessoa certa para o lugar certo. João Santana, suas teorias sobre o caráter teatral da política e a construção de personagens (Dilma a "rainha"", Lula um misto de "fortão e fraquinho") adequados ao imaginário popular, fizeram o resto.

Pois então é agora que a presidente despencou nas pesquisas que resolvem descobrir que a criatura não era aquilo tudo que se dizia e clamam pela volta do criador? O problema não é a preferência, mas o momento para externar um desejo equivalente ao atestado de fracasso do mandato em curso.

Em tese é papel de oposição. E se o PT quer se opor a Dilma Rousseffescrevendo isso por linhas tortas vai se deparar com algumas dificuldades. Primeiro, com a impossibilidade de Lula de dizer qualquer coisa diferente que a reafirmação do apoio à reeleição da presidente.

Segundo, com a hipótese de precisar recuar adiante, caso Dilma se recupere. Seja porque essa queda na avaliação do governo retrate apenas o momento turbulento, seja porque não apareça alguém capaz de capitalizar eleitoralmente a insatisfação ou porque os instrumentos de poder venham a falar mais alto.

Em terceiro lugar, resta saber se Lula quer mesmo se arriscar a que uma tentativa de volta por cima acabe se transformando numa volta por baixo, pondo o mito à prova em condições adversas.

A pesquisa que registra queda de 27 pontos nas intenções de voto de Dilma aponta redução de 10 pontos para Lula no mesmo quesito. Isso tendo ele se escondido na crise a fim de evitar que mais gente ligasse o nome do inventor aos defeitos de fábrica de sua invenção. Caso dispute, terá de se ver diante dessa ligação.

Plebiscito. A questão é: os problemas de gestão, os maus serviços prestados pelo Estado ficam resolvidos com a reforma política? Como o tempo é de sugestões, esta talvez fosse uma pergunta a ser feita na consulta à população em caráter realmente plebiscitário de resposta sim ou não.

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