Werther Santana/Estadão
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A 'geringonça' tupiniquim de Lula e Alckmin

Após filiar ex-governador, PSB aposta em 'socialismo criativo', com parlamentarismo

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2022 | 16h10
Atualizado 03 de maio de 2022 | 16h02

Depois de dar sinal verde para o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin ser vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PSB vai mudar sua plataforma e apostar no “socialismo criativo”. Agora, o partido aprovará um programa que prevê a defesa do parlamentarismo no Brasil, nos moldes do modelo da Espanha, de Portugal e dos países nórdicos.

“É uma geringonça tupiniquim ou uma alquimia”, afirmou o ex-governador Márcio França, fazendo um trocadilho com Alckmin. “Geringonça” era o nome de batismo da aliança de partidos de esquerda que durou seis anos, em Portugal. Na prática, o sistema adotado naquele país é o semipresidencialista, com um primeiro-ministro.

Sem entrar no varejo dessas discussões, Lula e Alckmin participam da abertura do Congresso Constituinte da Autorreforma do PSB, na noite desta quinta-feira, 28, em Brasília. O encontro vai oficializar o casamento do PT com o PSB para a eleição presidencial, o nome de Alckmin como vice da chapa e “repaginar” o programa do partido, prestes a completar 75 anos.

Cristão novo no PSB, o ex-governador – que passou 30 anos nas fileiras tucanas – também ocupará, a partir de agora, uma das vice-presidências da legenda. Está animado com a campanha e tem ajudado Lula nos contatos com empresários, principalmente do agronegócio, e também com as igrejas. A chapa será lançada em 7 de maio e somente depois disso os dois viajarão juntos.

O PT e Lula são contra o parlamentarismo defendido por Alckmin e pelo PSB. No mundo real da caça aos votos, porém, esse assunto está longe de aparecer. Questionado sobre a divergência, Márcio França amenizou a possibilidade de confronto. “Coligação é assim mesmo”, disse ele. “Respeitamos o fato de Lula ser o único líder capaz de vencer Jair Bolsonaro, mas não temos o mesmo estilo do PT nem pensamos como eles em tudo”, emendou o ex-governador, ao lembrar que o PSB, por exemplo, saiu do Foro de São Paulo, descontente com a influência do regime da Venezuela na organização.

Nesse cenário, além da corrida de obstáculos programáticos, o PT e o PSB também enfrentam desavenças para a formação de alianças regionais. A principal é justamente em São Paulo, onde França e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) são pré-candidatos ao Palácio dos Bandeirantes.

Diante dos desentendimentos, a união dos dois partidos não se reproduziu até agora na “joia da coroa”. Há dificuldades, ainda, para composição no Rio Grande do Sul e no Espírito Santo, além de disputas por protagonismo que atrapalham parcerias para o lançamento de candidatos ao Senado.

Enquanto as brigas paroquiais não se resolvem, o “socialismo criativo” do PSB prevê mudanças mais pragmáticas no Congresso da Autorreforrma. O encontro, que irá até sábado, aprovará agora  a “decisão digital”, que nada mais é do que uma enquete com filiados sobre assuntos polêmicos, por meio de um aplicativo. A ideia é que, se a consulta atingir 10% dos filiados, as bancadas do PSB no Congresso sejam obrigadas a votar de acordo com aquele resultado.

Se a chapa Lula-Alckmin for eleita, a revogação do teto de gastos públicos terá apoio não apenas do PT e do PSB, mas também dos outros partidos da aliança – PC do B, PV, Solidariedade, PSOL e Rede. O ex-governador não tem falado sobre o tema, mas já disse, num passado não muito distante, que  “esse negócio de teto” não é razoável.

A simples menção da proposta parlamentarista, porém, já provoca arrepios no PT. A turma que não queria Alckmin como vice não pode nem ouvir falar em primeiro-ministro. Mas a “geringonça”, no Brasil, é outra coisa...

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