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A escolha de Dilma

Prognósticos, quando contaminados por interesses próprios ou baseados em teses questionáveis, tendem ao descrédito dos meros exercícios de futurologia. Fossem outras as circunstâncias da crise ainda por ser enfrentada pelo governo da presidente Dilma Rousseff, talvez coubesse a avaliação de que as dúvidas quanto à sua capacidade de reação não passassem de torcida da oposição, obviamente motivada pelo seu insucesso.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h02

Mas não é da oposição o coro mais sonoro contra a forma escolhida pelo Planalto para responder aos protestos da população. É a base de sustentação do governo que grita mais alto, incluindo o partido que lhe deve mais fidelidade, o PT, por ser aquele pelo qual se elegeu e para o qual representa (ou representava) a possibilidade concreta de continuidade daquilo que abstratamente classifica como o "nosso projeto".

Os ares de desembarque da base aliada, mais nítida no súbito desdém do PMDB pelos cargos que ocupa, se explicam na leitura política consensual nos partidos sobre as chances de reversão dos índices negativos da presidente. As consideram remotas, menos pela possibilidade, em si, de uma virada, e mais por não criar expectativas positivas nos agentes econômicos e políticos.

Os partidos trabalham com números, contas e cenários, nessa ordem, a partir dos quais traçam perspectivas. Não desprezam o otimismo do publicitário João Santana, mas não acreditam em receitas de marketing para salvar o governo. Suas contas indicam que um quadro otimista de recuperação poderia devolver Dilma ao patamar dos 40% de ótimo e bom, insuficientes para resgatar seu favoritismo em 2014.

Com tal índice corre o risco de não chegar ao segundo turno e a resistência de seu governo em fazer as pazes com o mercado - até hoje um ente abstrato para ela e o PT - reforça a descrença de que possa ir além. Lembram que a queda nos índices já fora registrada antes dos protestos de rua e atribuída à percepção da inflação, através da alta dos preços.

Por isso, o recomendável seria que o governo se concentrasse em suas próprias reformas - da economia e ministerial - ao invés de se apropriar daquelas inerentes ao Legislativo, para indispô-lo com a população (até porque, não precisa, como atestam os jatinhos para casamento e futebol).

A dificuldade é que, embora simbolismos sejam importantes , agora não bastam: uma reforma ministerial, cobrada pela base, teria que se traduzir em requalificação do ministério e não em simples troca coletiva para gerar impacto.

Operação que impõe à presidente coragem para a ruptura com o modelo de seu partido - populista e orientado pela obsessão hegemônica.

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