Gabriela Biló
Ronaldo é um dos apoiadores de Aécio Neves, do PSDB Gabriela Biló

A eleição em que é urgente ter lado

Desde 1989, não se via tanto engajamento de artistas e do cidadão comum

Roldão Arruda, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 16h20

Ainda não é possível saber o quão divididos estarão os brasileiros após a votação deste domingo. A resposta virá após a apuração dos votos, ao final do dia. O que já está claro, no entanto, é que o Brasil vai sair muito mais assumido.

Desde a campanha presidencial de 1989, disputada no 2º turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello, não se via tantas pessoas assumindo publicamente suas preferências políticas e eleitorais quanto agora.

De grandes estrelas da MPB a ícones do futebol, de artistas de telenovelas a sindicalistas, de famosos a absolutamente anônimos, nas redes sociais que multiplicam vozes pela internet e fora delas, ao vivo, em escolas, restaurantes, nas praças, chamou a atenção nesse pleito a disposição dos eleitores de todo o País para declarar de maneira aberta o seu voto. Foi bastante comum, por exemplo, o caso de professores que, indagados por seus alunos sobre suas preferências políticas, não hesitaram um minuto em apontá-las.

É o caso dos professores Yuri Carajelescov e Ary Oswaldo Mattos Filho. Os dois ensinam na mesma instituição, a Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, uma das mais bem avaliadas do País. E os dois não fizeram segredo, em nenhum momento de encontros nos corredores, nos cafés da escola e em conversas pela internet que hoje, diante da urna eletrônica vão teclar números diferentes. Carajelescov, que dá aulas sobre legislação, ficará com o 13, de Dilma Rousseff (PT), e Mattos Filho, do núcleo de direito e negócios da FGV, optará pelo 45, de Aécio Neves (PSDB).

Amadurecimento. Para o professor Carajelescov, que tem 42 anos, essa renovada disposição do eleitor para assumir suas preferências sinaliza o amadurecimento da democracia. Na avaliação dele, durante muito tempo os brasileiros conviveram com temores herdados da ditadura. "Naquela época era problemático declarar preferências, porque você podia ser perseguido", diz ele. "Hoje há cada vez mais clareza de que se trata de um exercício de cidadania, que ninguém deve ser glorificado ou punido por isso."

O advogado Mattos Filho, de 74 anos, também acredita que a declaração das preferências políticas faz parte do exercício da cidadania. "Eu não saio por aí fazendo declarações, mas sempre que me perguntam eu respondo. Sempre. E nunca perdi nenhum amigo por isso”, afirma. "Se aparece alguém com posição diferente da minha, a gente fala e debate. O mundo tem que ser cada vez mais civilizado."

Do alto da experiência de quem já viu eleições desde o período democrático anterior à ditadura instalada em 1964, Mattos Filho diz que uma das coisas mais bonitas do pleito deste ano é justamente o aberto engajamento de setores cada vez mais amplos da sociedade, especialmente dos mais jovens. "Nesse processo estão se formando e surgindo novas lideranças políticas."

Problemas. O nível de engajamento ao qual o professor se refere mudou de gradação entre o primeiro e o segundo turno. No primeiro, com mais candidatos na disputa, era menor o número de pessoas dispostas a declarar o voto. No segundo, com a polarização entre as duas propostas de governo esticadas ao ponto máximo, a sociedade tomou partido de forma mais clara.

A polarização também favoreceu a radicalização. O sociólogo Marco Aurélio Nogueira, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), observa que os dois lados foram tomados por uma espécie de "inflamação irracional", que "inundou as redes" e acabou chegando às ruas. Apesar dos problemas, no entanto, ele afirma que esse processo de exposição e debate é positivo.

"Se algum saldo positivo vier a sair destas eleições", observou ele em seu blog sobre questões políticas, "ele incluirá, em lugar de destaque, a oportunidade que todos tivemos de aclarar os campos em que nos encontramos, os limites que estamos dispostos a suportar, as maneiras que escolhemos para discutir política e ideias, os valores que pretendemos cultivar, o quanto achamos que gentileza, respeito e bons modos devem integrar o relacionamento entre humanos."

Nesse acelerado processo de desnudamento das posições políticas, a cada ano que passa se tornam mais comuns manifestações de artistas e de outras figuras públicas sobre seu apoio a esse ou aquele candidato. Um dos últimos a desembarcar na arena política no segundo turno foi o jogador do Barcelona e da seleção brasileira Neymar, que declarou apoio ao candidato Aécio. “Não podemos ter medo de nos posicionar”, disse ele em sua página no Facebook.

Neymar se juntou a dezenas de outras personalidades que já estavam em campo. Entre outros, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, os três maiores ícones da MPB declararam apoio a Dilma. O apresentador de TV Luciano Huk, o cantor sertanejo Zezé de Camargo e o ator Lima Duarte ficaram com o candidato do PSDB. Nos últimos dias aumentou o número de manifestações, variando de juristas a artistas e esportistas. Não se se sabe o quanto elas influenciam o eleitor. Não há dúvida, porém, de que as essas manifestações, junto com as do eleitor anônimo, animam a festa democrática.

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Polarização estimula intolerância

ONG afirma que denúncias envolvendo racismo, homofobia e xenofobia crescem na campanha; relações pessoais entram em crise

O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 16h13

Edgar Maciel - O Estado de S. Paulo

As eleições de 2014 ficarão marcadas na história da política brasileira não só pelo engajamento, mas também pela intolerância e pelo discurso do ódio.

As redes sociais foram palco de combates violentos entre militantes e apoiadores das candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves. A intensidade das discussões na internet sobre as eleições fizeram aumentar em 95% o número de denúncias de conteúdos relacionados a racismo, homofobia, xenofobia, neonazismo e intolerância religiosa.

Entre 1.º de julho e 21 de outubro foram registradas 10.609 ocorrências na Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, uma rede de denúncias anônimas contra os direitos humanos. As reclamações foram recebidas pela ONG Safernet. Segundo o levantamento obtido pelo Estado, no mesmo período do ano passado foram feitas 5.416 denúncias.

No começo da campanha, o humor e a sátira dominavam os comentários dos primeiros debates eleitorais. No primeiro confronto, realizado no dia 26 de agosto na Band, os candidatos derrotados Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL) foram os campeões de repercussão e comentários.

Mas foi outro nanico, Levy Fidelix (PRTB), que gerou revolta na internet. No debate da Record, no dia 28 de setembro, declarou que "aparelho excretor não reproduz" e destilou diversos ataques contra os homossexuais. A reação foi imediata. As palavras "Levy" e "aparelho excretor" foram parar nos trending topics do Twitter brasileiro. Poucos minutos depois, a hashtag "LevyVocêÉNojento" girou um dos assuntos mais comentados.

A vitória de Dilma no 1.º turno da eleição deu início a um surto de mensagens preconceituosas contra os nordestinos. 

Diversas comunidades foram criadas no Facebook culpando os moradores do Nordeste - onde a petista teve o maior número de votos no Brasil - pela vitória do PT. "70% de votos para Dilma no Nordeste! Médicos do Nordeste causem um holocausto por aí", estava escrito em um perfil no Twitter. "Alguém separa o Nordeste desse país, por favor", dizia outra mensagem de um internauta.

Brigas. Durante a campanha do 2.º turno, o clima de confronto dos candidatos ao Planalto expôs mais do que um País dividido entre petistas e tucanos. As ruas e a internet foram tomadas por xingamentos e agressões entre eleitores.

Os irmãos Gabriella Gonzalles, 22, e Pedro Gonzalles, 37, moram em São Bernardo do Campo, no Grande ABC, no mesmo prédio, e estão sem dar um "bom dia" há uma semana. Ela, vota no PT. Ele, tucano nato, vai digitar 45 neste domingo. "Meu irmão não levou meu voto no PT numa boa. Se sentiu ofendido e partiu pra agressão pessoal. Começamos uma guerra familiar", contou. "Pra mim quem vota no PT é tão corrupto quanto a Dilma", rebateu Pedro.

Na última semana, Gabriella intensificou as postagens nas redes sociais a favor de Dilma e recebeu ameaças do irmão mais velho. "Ele me ligou gritando e exigiu que eu parasse com os posts. Ficou extremamente raivoso", contou. "Disse que era isso ou deixávamos de ser irmãos pra sempre", afirmou Pedro.

Depois da briga, ambos se bloquearam no Whatsapp, Facebook e Twitter. Um "bom dia" virou artigo raro e os almoços em família foram cancelados. "Só espero que essas eleições acabem logo, mas tenho certeza que se a Dilma ganhar nossa relação vai ficar ruim por um bom tempo", aposta Gabriella

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