A comunidade dos que escondiam tudo

Cenário: Marcelo Godoy

O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2013 | 02h03

A Comunidade de Informações viveu seu auge em São Paulo nos anos 1970. Comandada pela 2.ª Seção do Estado-Maior (Informações) do 2.º Exército, contava com representantes do Exército, do Dops, da PM, da Polícia Federal, do Serviço Nacional de Informações (SNI), da Secretaria da Segurança Pública, do 4.º Comando Aéreo Regional e do 6.º Distrito Naval. Com o fim da guerrilha urbana, em 1974, o Exército ampliou a comunidade em vez de reduzi-la. Entre as explicações para isso está o receio de que a oposição armada se reorganizasse. Prova disso são os informes trocados pela comunidade a partir de 1973 sobre a rearticulação do movimento estudantil e o medo que cada roubo de explosivos em pedreiras lhes despertava. Uma série misteriosa deles ocorreu em 1974 e mereceu atenção do 2.º Exército - em 1968, a guerrilha começara depois de uma série desses assaltos.

A comunidade ampliada, chamada "Comunidade Complementar", mantinha reuniões semanais das quais participavam até 50 pessoas. Quem a idealizou foi o poderoso coronel José de Barros Paes, que chefiou a 2.ª Seção do 2.º Exército de 1974 a 1976 e tinha sob suas ordens o DOI. O oficial convidou empresas estatais e privadas que forneciam e recebiam informações, como as concessionárias de telefonia, água e de luz. Faziam parte dos interesses da comunidade ainda empresas como a Petrobrás e metalúrgicas. "Interessava a parte industrial e a parte de serviços públicos, todos", disse um coronel do Exército.

Nas reuniões, o Dops relatava crimes contra a Lei de Segurança Nacional e informava sobre problemas nas áreas sindical e estudantil. No Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, por exemplo, havia um apontador do jogo do bicho que era informante da comunidade. O disfarce era perfeito. Ele circulava pelos andares livremente, sem despertar suspeita. As reuniões serviam ainda para a PM planejar onde usar a tropa de choque, para cuidar de passeatas estudantis ou greves. Por fim, ali se discutia infiltração comunista na administração pública. Quando um órgão de segurança recebia alguma informação, ele a registrava no dossiê da pessoa citada e só informava os demais órgãos se o assunto fosse de interesse coletivo. Nem todos, no entanto, dividiam as informações. "Você sabe o que é uma reunião da comunidade de informações? É uma reunião onde todo mundo vai esconder tudo de todo mundo", contou outro oficial que foi do grupo.

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