A catadores, Dilma diz que 'impunidade incentiva repetição'

Sem Lula, com quem almoçou em agenda extraoficial, presidente afirma ser preciso combater violência contra moradores de rua

FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h08

A presidente Dilma Rousseff afirmou ontem a catadores de materiais e moradores de rua, durante o tradicional evento de fim de ano que as duas classes promovem, que "a impunidade é um incentivo à repetição" e "ao crime". Ela se referia ao esforço que o governo federal tem de fazer para combater a violência contra as pessoas em situação de rua em todo o país. A declaração foi dada dias após o Supremo Tribunal Federal concluir o julgamento do mensalão.

"Não podemos descuidar da questão da impunidade. A ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) tem uma grande preocupação com o esclarecimento dos crimes e a redução da impunidade. A impunidade é um incentivo à repetição", afirmou a presidente. "A pessoa que ficou impune acha que não vai acontecer nada se cometer outro tipo de violência. Se ficar impune é um incentivo para o crime e para toda essa indignidade."

A presidente declarou que "é muito importante mobilizar todo o governo na questão da impunidade", mas sustentou que "só tem um jeito de fato de combatê-la": "É mobilizar toda a sociedade", disse Dilma, citando as igrejas e afirmando que o governo fará a sua parte dialogando com Estados e municípios para que haja "uma redução expressiva na violência" no Brasil.

Minutos antes, a presidente assistiu a um vídeo produzido pelos moradores que mostrava agressões contra pessoas que estavam em situação de rua. Uma cena chamou a atenção de Dilma: a de um policial jogando spray de pimenta nos olhos de um morador de rua que estava dormindo e se recusava a deixar o local onde estava. A presidente afirmou que os vídeos mostrados eram "muito fortes". "Não é concebível que se jogue spray de pimenta no olho de um catador ou morador de rua. É muito importante que a sociedade assuma também esse repúdio."

A presidente disse que representantes dos catadores lhe pediram que, em nome do governo federal, manifestasse à população brasileira que "os catadores são integrantes dignos da nossa nacionalidade".

Pouco antes, em discurso, Eduardo Ferreira, representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, afirmara: "Queremos ser reconhecidos como catadores profissionais e cidadãos, não como mendigos e maloqueiros".

Ferreira provocou uma saia-justa quando afirmou, olhando para Dilma, que os catadores não querem "a renda mínima, e sim um trabalho de verdade, que nos faça levar o pão de cada dia, em forma de emprego, que inclua". "Se o catador tiver um trabalho, ele vai ter a renda mínima." Os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, são os principais carros-chefe da área social do governo.

Lula. Pelo segundo ano consecutivo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi ao natal dos catadores. Durante seus oito anos de mandato, compareceu a todos. No ano passado, não pode ir porque acabara de iniciar o tratamento contra um câncer.

Desta vez, Lula decidiu não ir para não ofuscar o evento e a presidente. Avaliou que o encontro poderia se tornar um desagravo a ele, que foi acusado pelo empresário Marcos Valério de dar aval e de ter despesas pagas pelo esquema do mensalão e foi citado na Operação Porto Seguro, que derrubou a chefe do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha.

O ex-presidente preferiu se reunir com Dilma para um almoço, como ambos fazem rotineiramente quando a presidente viaja a São Paulo. "Nós convidamos, mas ele não quis ofuscar o brilho dela", disse Anderson Miranda, representante do Movimento Nacional da População de Rua. Ele agradeceu Lula pelo "apoio que dá aos movimentos sociais" e pelo "compromisso com catadores e moradores de rua".

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