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A candidatura capitalista

No momento em que o governo comemora, muito justamente, o êxito dos leilões dos aeroportos, com ágios de até o triplo do estimado - e até por isso -, ganha nitidez o custo pago pelo seu principal opositor, o PSDB, por renunciar gradativamente à sua principal virtude política - de ter iniciado, com as privatizações e o programa de estabilização da era FHC, a modernização do País.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h04

Processo interrompido com a eleição do PT, que se limitou a manter nos dois primeiros mandatos do ex-presidente Lula os fundamentos dessa estabilidade e a ampliar o alcance do Bolsa Família, de concepção e implantação também anteriores. Soube capitalizar, porém, os dois feitos como patrimônio do partido, com discurso socialista que situou o PSDB ideologicamente à direita, negando-lhe o papel inseminador nesse ciclo virtuoso.

Para isso contou com a ajuda inestimável do próprio rival, que somente agora faz a revisão crítica por se deixar constranger, durante uma década, pelo rótulo conservador que lhe foi imposto e que o fez perder, no plano eleitoral, a autoria e a capitalização do ciclo virtuoso iniciado com o Plano Real, que derrotou Lula duas vezes no primeiro turno.

Os protestos de junho, que reclamaram o chamado padrão Fifa de qualidade, denunciaram a exaustão do modelo de consumo, transformado de receita tópica em base da política econômica, e flagraram o governo do PT inadimplente com as ofertas básicas devidas ao contribuinte. Uma cobrança clara por eficiência, aviso ostensivo de que não se poderia mais, dali em diante, governar com discursos.

Não se registrara, até então, oportunidade mais propícia à retomada, pela oposição, da qual o PSDB é a expressão partidária mais representativa, do discurso capitalista, do Estado indutor, mas não intervencionista, do estímulo à iniciativa privada como motor do desenvolvimento, do governo de resultados.

Foi essa a linha da campanha do candidato tucano, Mário Covas, em 89, mas somente aplicada quase uma década e um impeachment presidencial depois, por Fernando Henrique Cardoso e saudado pelo ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco como "o mais puro choque de capitalismo, feito como nenhum de seus proponentes anteriores poderia imaginar".

Mas, na medida em que o governo Dilma, embora a contragosto, começa a se render à evidência da privatização como propulsora do desenvolvimento, o PSDB exibe uma convicção desbotada em relação ao tema. Ainda se constrange diante dele, o que o faz perder nova oportunidade de ter o candidato capitalista que falta ao cenário eleitoral e político.

E, pior, assistindo ao adversário roubar-lhe a identidade mais uma vez.

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