A busca pelo ataque certo para virar o jogo

Campanha de Serra passa 2º turno tentando achar 'calcanhar de Aquiles' do adversário

JULIA DUAILIBI, BRUNO BOGHOSSIAN, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h06

A nove dias do 2.º turno, uma conversa por telefone nas ruas do Jardim Pantanal, na zona leste, selou uma mudança de estratégia para tentar colocar José Serra (PSDB) na liderança das pesquisas de intenção de voto. De uma postura mais agressiva em relação ao PT, os tucanos resolveram apostar também na discussão programática, colocando em pauta o debate sobre as Organizações Sociais e o Bilhete Único com prazo de seis horas. Era a última tentativa de reverter o jogo.

No dia 19, Serra fazia uma caminhada ao lado do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do coordenador da campanha, Edson Aparecido, quando a equipe deu sinal verde ao marqueteiro Luiz Gonzalez para explorar nos programas na TV propostas que poderiam fragilizar a candidatura de Fernando Haddad (PT).

As pesquisas mostravam que Serra estava em tendência de queda. Para alterar a situação, a campanha poderia partir para o ataque, intensificando o tom agressivo da propaganda ou abandonar a rota beligerante e sair em busca do eleitor indeciso, que ajudaria a definir a eleição. Naquela altura, a equipe de Serra avaliava que um terço do eleitorado não estava satisfeito com o bate-boca entre o tucano e Haddad e que poderia atrair esse eleitor com um discurso menos agressivo.

No telefone, o marqueteiro avisou que o caminho possível era apostar na comparação entre as propostas, os modos petista e tucano de governar e as biografias. A princípio, Serra resistiu a diminuir o tom das críticas ao PT, alegando que também era alvo de ataques. Mas foi convencido.

O duelo com o PT continuaria, mas com mais discrição, nos programas de rádio e em folhetos distribuídos na periferia. Seria centrado na discussão ética e ilustrado com a condenação de petistas no julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal.

'Estatização'. A campanha mudava, então, sua estratégia e abria espaço para um outro embate. O tema a ser explorado foi levantado dias antes, em uma reunião na casa de Serra com colaboradores, onde foi dissecado o programa de governo apresentado pelo petista ainda no 1.º turno. No encontro, foi feita uma análise comparativa entre as propostas do tucano e as de Haddad. No capítulo sobre saúde, os tucanos encontraram o que poderia ser um "calcanhar de Aquiles" do petista.

A proposta do PT tergiversava sobre os convênios com organizações sociais na área da saúde. Havia ali um material a ser explorado: o flerte petista com a "estatização". Se, na campanha presidencial de 2006, o PSDB fora chamado de "privatista", agora era a vez de dizer que um governo do PT na maior cidade do País acabaria com as parcerias com a iniciativa privada em hospitais e postos de saúde, iniciadas na gestão de Serra e ampliadas por seu sucessor, Gilberto Kassab (PSD).

Questionamentos sobre a posição de Haddad em relação às organizações sociais passaram a dominar a pauta. Serra também anunciou a ampliação do Bilhete Único, defendida por Levy Fidelix (PRTB) no 1.º turno. Resultado: após uma semana, a diferença entre ele e Haddad, que chegou a 17 pontos porcentuais, caíra para 13 pontos.

Sem efeito. A decisão de alterar a rota da campanha foi tomada depois que a equipe de Serra percebeu que só a exploração do antipetismo na cidade não diminuía a rejeição do candidato, que aumentou no 2.º turno. A propaganda na TV também não conseguia melhorar a má avaliação da gestão Kassab.

Movimentos políticos considerados polêmicos pela própria equipe também não contribuíram para a recuperação do tucano. Serra firmou uma aliança com o líder evangélico Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, que havia anunciado que "arrebentaria" Haddad por causa do "kit gay" - o material de combate à homofobia encomendado pelo Ministério da Educação na gestão do petista, cuja distribuição foi suspensa por ordem do Planalto.

Durante uma semana, Serra atacou a cartilha. Depois, foi confrontado com a revelação de um material similar, encomendado por seu governo no Estado. Foi chamado de conservador e recebeu críticas dos próprios tucanos. O eleitor não encarou bem a discussão. A coordenação da campanha decidiu tirar o tema da pauta. Serra parou de responder a perguntas sobre o assunto, mas o estrago já estava feito.

A gestão de Kassab também se mostrava um "fardo" diante do discurso de mudança do adversário. Nas ruas, Serra passou a ouvir manifestações de comerciantes dizendo que a Prefeitura fazia "perseguição" aos estabelecimentos da cidade. A amigos o tucano comparou o impacto negativo de ações impopulares de Kassab sobre sua campanha ao aumento do preço do gás feito por FHC na corrida presidencial de 2002.

Para a equipe do PSDB, pesou também sobre Serra sua renúncia à Prefeitura em 2006 para disputar o governo do Estado. Kassab era seu vice e assumiu o comando do município naquele momento.

Nos últimos dias da campanha, tucanos passaram a bombardear Kassab nos bastidores. A avaliação era que o prefeito, cujo partido deve ganhar um ministério do governo federal, já se aproximava do PT paulistano. O líder do PSD na Câmara Municipal, vereador Marco Aurélio Cunha, sugeriu que seu partido deveria apoiar o governo de Haddad, em caso de vitória do petista.

Fôlego. A mudança na estratégia na reta final, com as críticas ao programa de Haddad, deu novo fôlego a Serra, que apostava em uma reviravolta nas urnas hoje. Aliados diziam que o quadro era difícil, mas não impossível.

Serra, que foi ministro, prefeito, governador e candidato à Presidência da República por duas vezes, resistiu a entrar na disputa municipal deste ano porque ainda sonhava com o Planalto. Isolado politicamente desde a derrota de 2010, decidiu concorrer para fortalecer seu grupo político. Mas sabia que seria uma campanha difícil. A depender do resultado de hoje, será possível avaliar se a aposta tucana foi arriscada demais.

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