80 anos de 1932 - A grande vitória

Análise: Antonio Penteado Mendonça

PRESIDENTE DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2012 | 03h02

A Proclamação da República no Brasil foi um acidente com péssimos resultados. Sonhada e vista como a melhor alternativa para depois da morte do imperador, tendo à frente importantes homens públicos e de negócios, especialmente de São Paulo, a República, que foi na origem um movimento civil, entrou em cena pela espada de um marechal desencantado.

Segundo o jornalista Julio Mesquita, republicano convicto e que rapidamente se decepcionou com seus resultados, a República chegou cedo demais. Além disso, era um movimento civil. A entrada em cena dos militares modificou seu caráter e deturpou sua razão de ser.

 

Desde o início, as coisas não aconteceram da melhor maneira possível. Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente da República, governou na marra. Seu sucessor, Floriano Peixoto, foi responsável por um dos governos mais brutais e sanguinários de toda a história do Brasil. Na sequência, veio a Guerra de Canudos, depois a do Contestado.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, surgem novas demandas sociais. As doutrinas marxistas se espalham pelo mundo. A extrema direita se contrapõe à extrema esquerda.

No Brasil, o "Levante dos 18 do Forte de Copacabana" marca o início de um novo tipo de movimento. Os "tenentes" deixam os quartéis para influir por bem ou por mal na vida política do País.

A crise de 1929 quebra a nação. O presidente Washington Luís, traindo o acordo do "Café com Leite", se recusa a aceitar um sucessor mineiro. Impõe outro paulista, que ganha a eleição, mas não leva. A Revolução de 1930 ganha força. Getúlio Vargas assume o poder. Os paulistas, logo depois, são tratados como vencidos. As sementes de 1932 estavam plantadas.

O "Governo Provisório" trata São Paulo como inimigo. Nomeia João Alberto, um "tenente" sem nenhum laço com a terra, interventor, e desconsidera o apoio dado pela população paulista e pelo Partido Democrático, fundamentais para sua vitória.

Em pouco tempo, pelas mais diversas razões, outras regiões do País se mostram insatisfeitas com o governo de Getúlio Vargas. São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais assinam um pacto para eventual deposição de Getúlio Vargas. Entre os motivos está a destituição do general Bertoldo Klinger do comando de Mato Grosso. Klinger escreve uma carta malcriada para o ministro da Guerra, forçando sua destituição.

No dia 9 de julho de 1932, São Paulo deu início ao movimento que duraria três meses, que mataria perto de mil pessoas e que, de uma forma torta, consolidaria Getúlio Vargas no poder até 1945.

Se as tropas paulistas avançassem rapidamente contra a capital federal, o Rio de Janeiro se levantaria, com a maioria dos militares aderindo ao movimento para a deposição de Getúlio Vargas e a redemocratização da Nação.

Parados na divisa. O caminho estava aberto. Entre a Estação da Luz e a Estação Central do Rio de Janeiro não havia nada que interrompesse a marcha das tropas. Nada, exceto o seu comandante. O coronel Euclydes Figueiredo ordenou que as tropas parassem ao atingir a divisa com o Rio de Janeiro. Acatando a ordem míope, os paulistas suspenderam o ataque. Rapidamente São Paulo, mal armado e com tropas compostas por voluntários, foi cercado por exércitos e polícias profissionais.

Por três meses os paulistas lutaram contra tropas de todo o Brasil. No fim de setembro não havia muito mais a ser feito. Em 2 de outubro acabou a luta. Os líderes civis e militares da guerra paulista foram embarcados no navio Siqueira Campos e exilados em Portugal.

Em 1933 Armando de Salles Oliveira foi nomeado interventor em São Paulo. Com ele se restabelece a harmonia nacional, os exilados paulistas podem voltar, o Brasil reencontra seu equilíbrio e em 1934 vota-se uma Constituição.

A leitura tradicional coloca a Constituição de 1934 como a contrapartida para a derrota nos campos de batalha. Mas é uma leitura imediatista, necessária para explicar a morte de quase mil pessoas nos campos de batalha.

Oitenta anos depois, a guerra de 1932 surge como um equívoco. Com as tropas parando na divisa do Rio de Janeiro, não havia como São Paulo vencer. Mas a Revolução é um marco.

Já a verdadeira vitória paulista aconteceu também em 1934, mas com a criação da Universidade de São Paulo, a primeira universidade do Brasil. Pensada em detalhes por Julio de Mesquita Filho e criada por seu cunhado Armando de Salles Oliveira, a USP é que vira o jogo. Preparada para formar a elite política e empresarial do Estado, é dela que saem as ideias e a capacidade empreendedora que, em poucos anos, industrializam São Paulo, mudam os níveis de produção e os patamares sociais, consolidam a urbanização, a educação superior gratuita e a educação profissional. Enfim, criam uma sociedade comparável às nações mais modernas do mundo, em termos de progresso e qualidade de vida.

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