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O que aconteceu com Marina Silva?

Após se manter na segunda colocação na maioria das pesquisas, candidata do PSB fica fora da...

Politica.Estadao,

05 de Outubro de 2014 | 00:00
Atualizado 06 de Outubro de 2014 | 14:56

Marcio Fernandes/Estadão

Apontada como a principal adversária de Dilma Rousseff nas eleições à Presidência, Marina Silva (PSB) perdeu o fôlego na reta final e foi superada por Aécio Neves (PSDB). Após se manter na segunda colocação na maior parte do tempo, de acordo com as pesquisas de votos, o terceiro lugar nas urnas foi uma decepção para a sucessora de Eduardo Campos.

O coordenador de sua campanha, Walter Feldman atribuiu, em entrevista à TV Estadão, a ausência da candidata do PSB às variadas mudanças de escolha dos eleitores brasileiros e também à desconstrução feita pelos adversários. "Essa foi uma campanha em ondas, que mostra a volatilidade do voto brasileiro. A identidade de mudança foi esforço da Marina Silva, mas os instrumentos foram insuficientes. Os instrumentos do marketing, da desconstrução, de boatos, foram mais fortes", disse Feldman, fazendo referência aos ataques frequentes dos candidatos de PT e PSDB.

O cientista político Pedro Fassoni Arruda, professor da Puc-SP, e o sociólogo Wagner Iglecias, da USP, também comentam a 'virada': 

Faltou consistência
Faltou consistência

Ricardo Ribeiro

Cientista social

O resultado do primeiro turno das eleições indicou que, em uma campanha presidencial no Brasil hoje, são remotas as chances de sucesso de candidatos sem uma base de sustentação política mais consistente. Assim, fenômenos midiáticos como a eleição de Fernando Collor de Mello tendem a não resistir. Claro que Marina Silva não é Fernando Collor, mas com ele existia uma grande semelhança no sentido dela contar com uma base de apoio político difusa e com os quadros de sempre vestidos com roupas novas.

Além disso, no decorrer da campanha ela se viu enredada pelos seus compromissos diversos com forças no mínimo controversas como o pastor Malafaia. No final das contas, o que restou para o segundo turno são duas forças políticas razoavelmente constituídas e com condições de montar um governo sem grande surpresas ou contradições.

Neste momento ainda é difícil afirmar qual será o resultado das urnas que veremos daqui a 20 dias. Embora tenha ficado na frente, a situação da Dilma não é confortável, especialmente com a ascensão de Aécio verificada na reta final do primeiro turno. O último tem se saído melhor do que a presidente nos debates. As notícias sobre a Petrobrás e o andamento da economia também deverão ter um peso grande nos resultados.

Enfim, tudo indica que os corações das lideranças petistas deverão passar por várias provas de fogo. Entretanto, não podemos também deixar de considerar que a militância desse partido e a sua capacidade de operar com as redes sociais poderão impedir maiores danos. Uma coisa, porém, é certa - acredito que o calor da campanha deverá se elevar, na medida em que o amplo leque de apoio da Marina e que foi derrotado no primeiro turno deverá reforçar as baterias de ataque do PSDB ao PT. 

Ricardo Ribeiro,

cientista político pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, doutor em Educação pela USP e professor da Unesp

Causas da derrota
Causas da derrota

Pedro Arruda

Cientista político

Em primeiro lugar, deve-se levar em consideração que os partidos políticos, num sistema eleitoral como o brasileiro, possuem o monopólio da representação política. Não existe possibilidade de apresentação de candidaturas avulsas. O PSB é um partido pequeno, com poucas cadeiras no Congresso. Nesse ponto, a vantagem dos tucanos é evidente. O PSDB conta com uma máquina bem organizada, com muita capilaridade em todo o território nacional: diretórios municipais e estaduais, vereadores, prefeitos, governadores, deputados etc. Seus eleitores são mais fiéis e identificados com os candidatos do partido, enquanto Marina Silva sempre foi vista como uma outsider dentro do seu próprio partido; afinal, sua filiação ao PSB já continha explicitamente um prazo de validade. Os eleitores de Marina, justamente por essa razão, eram os mais propensos a mudar de opinião, como já indicavam as pesquisas de opinião pública e as oscilações de intenção de voto.

O estilo personalista da sua liderança política também já indicava os alcances e os limites da candidatura. Ocorreram episódios de tensão e desentendimento com colegas do PSB, que desde logo constataram sua dificuldade em administrar as crises e fazer concessões. As alianças nos Estados eram outro fator de complicação, pois a candidata da "mudança" acabou dividindo o mesmo palanque com velhos caciques da política, muito identificados com a manutenção do status quo.

Durante a campanha, Marina Silva cometeu uma série de erros. Ela se vangloriava de ter apresentado um programa de governo, e criticou os adversários por não terem feito o mesmo. Depois, descobriu-se que vários trechos do programa do PSB eram objeto de plágio. Muitos passaram a acusar a candidata de sequer conhecer o tal programa, depois que ela se viu forçada a recuar depois das pressões de grupos ultraconservadores.

Marina se apresentava como a candidata da "mudança". Mas ela nunca conseguiu explicar exatamente quais as mudanças que pretendia fazer. Suas propostas eram demasiadamente genéricas, vagas e imprecisas. Neste ponto, a desvantagem em relação a Aécio Neves também era flagrante: enquanto o candidato tucano soube marcar posição com um discurso claramente oposicionista, Marina tentava agradar todos os segmentos do eleitorado. Assim, ela começou a declarar que pretendia governar com os "melhores quadros" do PT e do PSDB, gerando mais confusão entre os eleitores do que esclarecimentos.

Além de conseguir poucos votos no segmento antipetista do eleitorado, Marina também não soube explorar o descontentamento da população com o maior partido de oposição. O programa de governo de Marina, contendo teses de economistas neoliberais como Gianetti da Fonseca, guardava poucas diferenças com o modelo adotado pelo ex-presidente FHC, que hoje conta com uma popularidade bastante baixa. E assim, a tentativa de romper com a polarização PT versus PSDB fracassou completamente.

Pedro Arruda,

cientista político e professor da PUC/SP

Destino incerto
Destino incerto

Wagner Iglecias

Sociólogo

Grande surpresa da eleição de 2010, Marina Silva fechou o pleito de 2014 com a mesma votação de quatro anos atrás. É provavelmente um resultado frustrante para todos aqueles que ansiavam por alguma alternativa para além da já tradicional polarização entre PT e PSDB na disputa pelo comando do País. A subida meteórica nas intenções de voto colocou Marina no centro da campanha e atraiu as críticas e questionamentos de seus adversários, tanto sobre suas propostas quanto sobre suas alianças. Uma estratégia aparentemente voltada a ampliar, sobretudo à direita, seu eleitorado, parece ter sido fatal para a candidatura.

Temas polêmicos como a independência do Banco Central e idas e vindas em questões como os direitos LGBT trouxeram muitos prejuízos à candidatura. Aos olhos de parte do eleitorado, a candidata não soube defender muito bem diversos pontos de seu programa e passou a imagem de fragilidade.

O derretimento, termo que está sendo muito utilizado, da candidatura Marina, também pode ser devido ao fato de que a onda conservadora que se viu nas urnas tenha feito com que o eleitorado antipetista nos últimos dias tenha voltado ou optado por Aécio Neves. Talvez parte dos eleitores que nas pesquisas diziam preferir Marina na verdade só desejavam barrar um novo mandato do PT, e viam nela a candidatura mais viável. À medida em que Marina foi mostrando suas fragilidades no decorrer da campanha tais setores manifestaram-se por Aécio.

Como incógnita permanece o destino de Marina: escolherá a neutralidade novamente, como fez no segundo turno de 2010 entre Dilma e José Serra, ou desta vez apoiará algum dos dois finalistas? A neutralidade lhe garante distanciamento da disputa final pesada que deve vir por ai, e condições de voltar-se para a organização de seu partido e o estabelecimento de estratégias para os anos vindouros. Mas poderá lhe custar caro omitir-se num momento tão decisivo da história brasileira. Contudo, a opção por um ou outro lado poderá render-lhe boa posição no próximo governo, mas poderá frustrar enormemente a militância da Rede e todos aqueles eleitores que rejeitam tanto PT quando PSDB. 

Wagner Iglecias,

doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

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