Uma banana para os juros

Jose Roberto de Toledo

01 Setembro 2011 | 11h25

“É a opinião pública, estúpido!” Ao contrário da frase imortal de James Carville, a economia parece ter trocado de lugar com a política na ordem natural das coisas. Será?

O Banco Central surpreendeu essa entidade mítica, “o mercado”, ao cortar a taxa de juros antes da hora. Antes da hora na opinião dos analistas que erraram suas previsões, é claro. Foi pressão política de Dilma Rousseff? Ou choque de realidade no Copom, que descobriu que o Brasil não é um planeta isolado da economia global? Ambos.

Como aponta o repórter Fernando Nakagawa, no Estado, o corte ocorreu um dia depois de Dilma ter dito vislumbrar a possibilidade de um ciclo de redução dos juros. Postos nessa ordem, parecem causa e efeito. Mas o contrário é mais provável: Alexandre Tombini, o presidente do Banco Central, deve ter feito chegar aos ouvidos da presidente a tal possibilidade, e ela apenas se antecipou.

A novidade é que Ministério da Fazenda e Banco Central parecem trabalhar alinhados em uma mesma política. O primeiro anuncia cortes de gastos públicos e cria oportunidade para o outro cortar os juros, tudo no espaço de três dias, com a declaração presidencial no meio. Sugere coordenação. Se dará certo é outra questão, mas parece superada a fase dos conflitos na área econômica.

O Banco Central demonstrou preocupação de que isso seja interpretado como ameaça à sua independência -do contrário, não teria divulgado um comunicado tão longo quanto inédito para explicar imediatamente o corte dos juros. Outra interpretação é que mais forças, além de “o mercado”, passaram a influir nas decisões do Copom. Basicamente, a opinião pública.

“Sacrilégio!”, clamarão “os analistas”. “As decisões de política monetária e fiscal devem ser tomadas com base em critérios estritamente técnicos, segundo os cânones consagrados”. Consagrados por quem? Por “o mercado”. Mas mesmo a oposição ao governo no Congresso apoiou o corte de juros, porque sabe que a opinião pública é a favor. E porque, se der errado, a culpa não será dela, mas do governo.

Por mais técnica que seja, em qualquer questão cabem interpretações diferentes. Não fosse assim, por que 11 ministros no Supremo Tribunal Federal e seus julgamentos rachados? O próprio Comitê de Política Monetária, o Copom, dividiu-se quanto ao corte imediato de 0,5 ponto porcentual dos juros: cinco votaram a favor e dois contra.

As decisões são baseadas em fatos como a queda da confiança do consumidor, mas o peso que se atribui a eles é uma interpretação de cada integrante do Copom. E ela está ligada ao que se quer: uma inflação maior ou menor versus um ritmo de crescimento da economia idem idem. Do jogo de forças entre essas metas surgem as decisões de política econômica. Por isso o substantivo na expressão é “política”.

Como é política a busca de Dilma por um equilíbrio arriscado entre popularidade (leia-se economia aquecida e juros menores) e ajustes necessários ao controle da inflação (leia-se corte de gastos e juros altos). Se pender muito para a primeira, “o mercado” pode apostar contra ela e acelerar a alta de preços. Mas se perder popularidade, Dilma se enfraquecerá para negociar com aliados e opositores no Congresso. Sua margem de erro é cada vez menor.

Juros altos ou baixos, alguma coisa está errada quando o preço da banana é duas vezes mais alto no Brasil do que nos EUA. Por mais “bananeiras” que pareçam as rusgas entre Barack Obama e os republicanos no Congresso, nada justifica ser teoricamente possível o Brasil comprar bananas “norte-americanas” com vantagem. Já basta ter que importar etanol.