Trump e Obama, Temer e Lula

Jose Roberto de Toledo

19 de janeiro de 2017 | 00h09

Donald Trump assume o cargo político mais importante do mundo com a maré de opinião pública menos favorável entre os últimos quatro presidentes dos EUA. A maioria absoluta dos gringos – 55% – tem visão negativa de Trump, contra apenas 40% de opiniões a seu favor, segundo o Gallup, o mais tradicional instituto de pesquisa do país. Enquanto isso, Barack Obama deixa a Casa Branca com 58% de opiniões favoráveis sobre seu governo.

Antes que venha a ladainha de que os institutos erraram nas eleições dos EUA, é bom lembrar que as pesquisas nacionais previram corretamente que Hillary Clinton seria a vencedora no voto popular – como de fato foi. Ela obteve dois pontos percentuais de vantagem, ou cerca de 3 milhões de votos a mais do que Trump: 48% a 46%. Em suma, Trump já assume com menos eleitores favoráveis do que ele teve de apoio nas urnas.

Parece um contra-senso: o presidente que deixa o governo em alta, com uma popularidade menor apenas do que a que teve ao tomar posse, não conseguiu fazer seu sucessor. E um candidato que rachou os EUA, teve menos votos do que a rival e vive às turras com a imprensa acabou eleito pelo esdrúxulo sistema eleitoral norte-americano. É tudo questão de expectativas.

Antes de Obama fazer seu juramento presidencial num congelante dia de inverno em Washington oito anos atrás, nada menos do que 78% dos gringos tinham opinião favorável sobre seu futuro governo. Eram 16 pontos a mais do que tiveram de seu antecessor, George W. Bush, e 12 além do que concederam a Bill Clinton.

A expectativa do que Obama poderia fazer era tão alta que ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz com menos de dez meses de gestão, antes de cumprir qualquer promessa. Como o tempo mostrou, foi uma premiação precoce, fruto muito mais da excitação do que do desempenho do primeiro presidente negro da história dos EUA.

Seu governo nunca caiu abaixo de 42% de avaliações positivas, mas, embora com uma popularidade mais favorável do que o contrário na maior parte do tempo, Obama nunca chegou nem perto de atender aos 78% de expectativas favoráveis pré-posse. Começou com 69% em 2009, foi caindo, caindo e chegou a 47% em 2011. Coincidentemente, foi quando ele visitou o Brasil e, por algumas semanas, ajudou a inflar a popularidade de Dilma Rousseff.

Reeleito em 2012, novamente Obama teve um pico de popularidade provocado pelas expectativas favoráveis pré-posse: começou 2013 com 58% de opiniões positivas. Mas, pela segunda vez, não atendeu à expectativa e foi daí para baixo, até bater no piso de 42% em 2015. Graças à economia em recuperação, iniciou um processo de melhora de sua avaliação até voltar aos 58% agora.

Mesmo assim, são 20 pontos a menos do que seus compatriotas esperavam dele. Provavelmente, esperavam demais. Embora Obama esteja saindo por cima, a eleição de Trump é sinal de que ele poderia ter feito mais, de que poderia ter sido melhor. É como se o “sim, podemos” tivesse virado um “sim, poderíamos – mas não fomos”. É exatamente o oposto do que acontece com seu sucessor.

A maioria não espera nada de Trump – nada de bom, ao menos. É mais ou menos como Michel Temer: se fizer qualquer coisa de positivo, já será mais do que esperavam dele. Baixa expectativa, porém, não é garantia de sucesso. O republicano – assim como o peemedebista – pode muito bem confirmar a má opinião que fazem dele. Nesse caso, a imagem de Obama deve melhorar – assim como a de sua mulher, Michelle (que já sai com 68% de aprovação).

É o que Temer vem fazendo com a popularidade de Lula. Estão na mesma escada: o petista sobe os degraus que o presidente desce.

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