Texto versus números no IDH

Texto versus números no IDH

Jose Roberto de Toledo

15 de março de 2013 | 14h27

Estatísticos e redatores parecem não ter chegado a um consenso sobre o lugar do Brasil no Relatório de Desenvolvimento Humano 2013 do PNUD/ONU. Enquanto uns usaram dados educacionais de 2005 que ajudaram o país a praticamente estacionar no seu Índice de Desenvolvimento Humano no curto prazo, outros citaram o Brasil como um dos exemplos de estratégia para avançar no longo prazo.

Desta vez, os redatores do relatório chegaram mais perto da realidade do que os compiladores de estatísticas. O texto é mais revelador do que a tabela principal no RDH 2013.

O IDH é inadequado para medir movimentos de curto prazo. Três dos quatro indicadores usados na composição do índice movem-se muito lentamente e só são capazes de capturar tendências que demoram anos, senão décadas para mudar. A saber: média de anos de estudo da população, média de anos que os alunos devem passar na escola e a esperança de vida ao nascer.

O único indicador sujeito a alterações bruscas é a renda nacional per capita. Mas o IDH foi criado justamente para ser um contraponto ao PIB e a visão economicista do mundo que ele encerra. Dinheiro, dentro do IDH, é um meio para atingir o desenvolvimento humano, não um fim em si próprio. Logo, não faz sentido analisar o IDH de perto, com microscópio. Avanços e retrocessos se medem à distância, em perspectiva histórica.

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O que os redatores do RDH 2013 captaram muito bem é que um grupo de países – Brasil incluído – teve um desenvolvimento acima do esperado ao longo das últimas décadas. Eles devem estar fazendo algo certo e merecem ser olhados, aí sim, com lupa, para ver se há algo no seu modelo que possa ser copiado por outras nações. Daí que China, Índia e Brasil tenham sido as estrelas do texto.

Em comum, esses países promoveram políticas que os levaram nos últimos 20 ou 30 anos a dar um salto de desenvolvimento. É fato que o salto chinês foi maior, mas partiu de um patamar mais baixo, onde avanços encontram menos resistência. Foi o que aconteceu com o Brasil nos anos 80, quando políticas simples e baratas como a adoção do soro caseiro para combater a mortalidade infantil teve enorme impacto sobre a longevidade.

Os avanços só são significativos se mantidos ao longo do tempo. O IDH, por consequência, não serve para medir o desempenho de um ou outro governo. Por mais urticária que isso possa provocar em petistas e tucanos, não haveria progresso do IDH se a estratégia tivesse sido interrompida com a troca de presidentes.

As táticas usadas por China, Índia e Brasil foram diferentes, mas o trio convergiu na estratégia: os três investiram em saúde e educação (em diferentes graus) e fortaleceram seus mercados internos ao mesmo tempo que ampliavam o número de parceiros comerciais e diminuíam sua dependência dos países ricos. Para fortalecer o mercado interno, multiplicaram os consumidores através da distribuição de renda na base da pirâmide.

Se fosse para resumir numa imagem, o relatório mostra que um país avança mais rapidamente quando é empurrado pela base, onde está o grosso da população, do que quando é puxado pela ponta, onde permanece a sua elite.

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