Tempo urge para Temer

Jose Roberto de Toledo

15 Dezembro 2016 | 00h10

Em Brasília, a regra é o judicial se submeter ao político. No cipoal normativo brasileiro, sempre há lei, artigo ou jurisprudência à mão para justificar quase qualquer coisa. A decisão do Supremo a favor de Renan Calheiros é a mais recente, e não é exceção. Juristas podem dar parecer para lá e para cá, mas, data vênia, se o clima político pender pela ejeção precoce de Michel Temer, a Justiça não será empecilho, mas facilitadora.

Seja por uma renúncia forçada, como explicitou o senador e porta-voz dos ruralistas, Ronaldo Caiado (DEM-GO), seja pela cassação da chapa Dilma/Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral – uma mola que o presidente do TSE, Gilmar Mendes, pode contrair ou liberar a qualquer tempo -, o modo de ejeção é menos importante do que as condições necessárias para apertar o botão.

Perceber o clima político, porém, é tão complexo quanto medir as condições atmosféricas. Dizia Magalhães Pinto, política é como nuvem: agora está de um jeito, no instante seguinte, já mudou.

A complexidade se deve à quantidade de variáveis. Envolve não só quantos deputados e senadores com os quais um presidente pode contar a cada momento, mas o apoio ou oposição que ele sofre dos diferentes segmentos empresariais e, cada vez mais, da opinião pública. Para complicar, há fenômenos imprevisíveis, como operações da Polícia Federal e vazamentos de delações premiadas.

Se prognosticar o que vai acontecer amanhã é arriscado mas possível, crer em previsão de que vai fazer sol ou cair uma tempestade daqui a três meses beira o misticismo. No máximo, pode-se acompanhar as principais variáveis de perto, ver como se comportam, como evoluem, e traçar cenários plausíveis.

No Congresso, aparecem fissuras no rolo compressor de Temer. Aprovada e comprovada pelo congelamento dos gastos públicos, a maioria governista perdeu oito votos do primeiro para o segundo turno de votação no Senado. Houve ameaça de obstrução da reforma da Previdência, e há disputa uterina entre Centrão e PSDB pelo comando da Câmara. Por ora, a liberação do pagamento de R$ 1,2 bilhão em emendas parlamentares adiou maiores problemas.

No palácio, Temer está cada vez mais solitário. Perdeu o braço do é dando que se recebe e não conseguiu uma prótese. Depois que Geddel Viera Lima escorregou na ladeira do Porto da Barra, Temer ensaiou nomear um tucano para a vaga, mas recuou diante da pressão do Centrão. Agora, o presidente perdeu seu assessor franciscano: José Yunes é amigo do presidente desde quando estudaram na São Francisco. Foi levado pelo furacão Odebrecht.

No empresariado, há resmungos contra a demora na retomada do crescimento, mas são raras as manifestações públicas contra o governo. Ao contrário, nos últimos dias houve um esforço comovente para premiar Temer, chamá-lo de líder, de homem do ano. Longe dos holofotes, vendas em queda, desemprego em alta e perda de confiança alimentam projeções ainda piores para 2017.

Em um esforço para compensar o noticiário negativo, Temer encomendou a Henrique Meirelles um pacotinho econômico de Natal. A Confederação Nacional da Indústria deixou para o dia seguinte a divulgação do Ibope de Temer. Se fosse alto, reforçaria a tentativa de injetar confiança na economia. Mas, a julgar pelo Datafolha, deve estar bem perto de traço.

É o principal problema do presidente. Sua popularidade está despencando em um gerúndio sem fim. Se essa insatisfação demorará um, dois ou três meses para ser ouvida em Brasília, nem o homem do tempo pode dizer. Mas é certo que não adianta só esperar. Quando ela chegar, será tarde demais para reagir.