Temer apara a queda

Jose Roberto de Toledo

29 de maio de 2017 | 02h12

Michel Temer não caiu de vez porque o empresariado está temeroso com a consequência de sua queda, e porque Rodrigo Maia não tem metade da astúcia e despudor de Eduardo Cunha no comando da Câmara dos Deputados. Consequentemente, quem pode não quer substituir o presidente – e quem quer não pode. Uns relutam a virar vidraça, os outros já são. Não se deve misturar o tempo verbal com o significado do verbo, porém. Temer está caindo.

Flexionado no gerúndio, cair pode se confundir com voar. A diferença é insuperável: voa-se em qualquer sentido; a caída, todavia, é só pra baixo. Como quem veste paraquedas, Temer tenta controlar direção e velocidade do descenso. Busca um pouso bem longe de Curitiba. Pode demorar, mas, no fim, a gravidade sempre vence o paraquedista e puxa-o para o chão. Gravidade não falta.

Temer é o presidente cujo assessor mais próximo foi flagrado carregando há menos de dois meses mala com R$ 500 mil – propina para garantir o atendimento de interesses da JBS no Cade, segundo delatou a própria empresa. Para piorar, Rodrigo Rocha Loures devolveu a grana à polícia em duas parcelas. Não precisou nem de perícia: como ficassem faltando R$ 35 mil na primeira vez, ele fez um depósito da diferença. Ou seja, não só sabia o que havia na mala como reconheceu seu conteúdo e completou-o.

Desde a posse de Osmar Serraglio na Justiça, em 7 de março, o ex-secretário de Temer tinha ganhado direito a foro privilegiado pois virara deputado na vaga do ministro. Após ser noticiado que Rocha Loures negociava delação, Temer demitiu Serraglio. Se ele voltasse à Câmara, seu suplente perderia a regalia de ser julgado pelo Supremo. Foi só um susto. Em seguida, Temer vazou que deve nomear o ministro demitido para outro ministério. É prudente. Obstrução e Justiça nunca ficam bem na mesma frase.

Nem é preciso lembrar que Temer é também o presidente que, outro dia, teve um auxiliar que trabalhava no mesmo andar que ele no Palácio do Planalto preso e acusado de fraude com dinheiro público; e que tem outros dois parceiros de longa data suspeitos de receberem R$ 1 milhão cada um de investigados pela Lava Jato. Ninguém é culpado só por associação: ou Temer dá muito azar a quem trabalha perto dele, ou escolhe muito mal seus auxiliares.

Vale também para os 5 dos 10 ministros investigados de Temer que perderão o foro privilegiado assim que deixarem seus cargos na Esplanada: Eliseu Padilha, Moreira Franco, Gilberto Kassab, Helder Barbalho e Marcos Pereira. Eles influenciam dezenas de votos no Congresso e não devem estar nada aflitos para esse dia chegar. Sua falta de pressa mantém o paraquedas de Temer no ar por mais tempo. Mas o suspense não se sustenta para sempre.

Quanto mais o presidente fica em suspensão, maior o custo. Mais emendas parlamentares são liberadas, mais cargos públicos são loteados. A dívida pública voltou a bater recorde no mês passado, e, segundo o BC, vai continuar batendo até dezembro. Se não forem desossadas, as reformas talvez venham a economizar algum no futuro. Por enquanto, só deram prejuízo – tanto maior quanto o tamanho da sua confusão com a sobrevivência do governo.

Como o ministro da Fazenda não se cansa de repetir, uma coisa não depende da outra. As reformas serão aprovadas com ou sem Temer, voltou a prometer Henrique Meirelles, na semana passada, em conversa em inglês com investidores estrangeiros. Para o português, a tradução ainda não é simultânea. Empresários não se convenceram de que o Congresso sozinho mudará a legislação trabalhista e as regras de aposentadoria. Temem o pós-Temer.

Sem temores, não há o que apare a queda do presidente.

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