Serra bate Dilma entre beneficiários do Bolsa Família no Sul/SE e perde nos do N/NE

Jose Roberto de Toledo

09 de junho de 2010 | 05h00

(texto publicado na edição impressa de O Estado de S.Paulo)

O assistencialismo sozinho não explica o comportamento do eleitorado governista na sucessão presidencial. Tampouco alistar eleitores em programas sociais é garantia, por si só, de voto na urna. Outros fatores, como a região onde mora o eleitor, são mais importantes na divisão do voto. Essas são algumas das conclusões da pesquisa Ibope/Estado/Rede Globo.

Cruzamento especial encomendado pelo Estado mostra que no conjunto da região Sul/Sudeste, o pré-candidato da oposição, José Serra (PSDB), ganha de Dilma Rousseff (PT) entre os eleitores que moram em domicílios que são beneficiados por ao menos um programa federal, como o Bolsa Família.

O tucano tem 40% das intenções de voto contra 35% da petista nesse segmento, que representa 23% do total do eleitorado do Sul/Sudeste. A vantagem de Serra entre os assistidos pelo governo federal é metade da que ele tem no total de eleitores dessas duas regiões (42% do tucano contra 31% de Dilma), mas, ainda assim, é surpreendente, em se tratando de um grupo que teoricamente seria mais favorável ao candidato de Lula.

Já no conjunto das regiões Norte/Nordeste/Centro-Oeste, a vantagem na disputa pelos eleitores assistidos por programas federais se inverte. Dilma tem 49% das intenções de voto dos beneficiários de Bolsa Família e similares, enquanto Serra chega a 27% entre eles.

A distância em favor da petista, de 22 pontos porcentuais, é grande, mas não muito maior do que a vantagem que ela leva no total do eleitorado dessas três regiões, onde bate o tucano por 45% a 28%. Os beneficiados pelo assistencialismo federal têm um peso muito maior no Norte/Nordeste/Centro-Oeste do que no resto do país: eles são 40% do eleitorado norte-nordestino e do Brasil central.

Se levarmos em conta o total do Brasil, 30% dos eleitores vivem em domicílios que têm ao menos um morador beneficiado por um programa social do governo federal, do Bolsa Família ao Luz para Todos.

Na média brasileira, esse fator também mostrou-se menos decisivo para determinar a intenção de voto dos eleitores do que o senso comum acostumou-se a pintar. Dilma tem uma vantagem de 43% a 33% sobre Serra (eles empatam em 37% no total do eleitorado).

Os cruzamentos da pesquisa mostram que as razões de voto são multidimensionais, são camadas de motivos superpostos, diz Silvia Cervellini, diretora de atendimento do Ibope Inteligência. Nenhuma fator sozinho, como por exemplo o Bolsa Família, explica a decisão do eleitor de votar em A ou B.

As diferenças de renda e escolaridade também não explicam a preferência por Serra ou Dilma. No Norte/Nordeste/Centro-Oeste, a pré-candidata do PT vence em todas as classes sociais, e com uma vantagem ainda maior entre os mais escolarizados e ricos do que entre os pobres e eleitores com poucos anos de estudo.

Do mesmo jeito, Serra lidera em praticamente todos os segmentos socio-econômicos do Sul/Sudeste. Logo, mais do que a renda, mais do tempo que o eleitor passou na escola, e até mesmo mais do que o fato de ele se beneficiar de um programa federal, é a região geográfica que diferencia o voto na sucessão presidencial de 2010.

A pesquisa Ibope não fornece elementos para uma explicação definitiva sobre a razão desse determinismo geográfico do voto. Mas dá algumas pistas. O governo Lula é sensivelmente mais bem avaliado no Nordeste (recebe nota 8,4) e no Norte/Centro-Oeste (nota 8,1), do que no Sudeste (7,5) e no Sul (7,1).

Mas essa avaliação geral mais positiva não se explica por uma percepção, por exemplo, de que as oportunidades de emprego ou o consumo das pessoas melhoram mais no Norte/Nordeste/Centro-Oeste do que no resto do país. O percentual dos que acham que a essas dimensões econômicas melhoraram se equivale ao verificado no Sudeste.

Isso indica que há outros motivos, talvez ligados à tradição política de cada região, que contribuem para essa dicotomia eleitoral. Algo como o que ocorre nas eleições presidenciais norte-americanas, onde há uma divisão Norte-Sul entre democratas e republicanos.

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