Sarney e os acidentes históricos

Jose Roberto de Toledo

31 de maio de 2011 | 02h03

Há algo mais acidental do que a chegada de José Sarney (PMDB-AP) à Presidência da República? Logo, se era para eliminar os acidentes da história, não haveria de ser o impeachment de Fernando Collor a ficar de fora. A nova decoração do túnel do tempo do Senado não é uma linha do tempo da história da instituição, é bajulação aos senadores de plantão.

Na história não há acidentes. Se o jabuti está em cima da árvore, é porque alguém colocou-o lá, ensinava Ulysses Guimarães (na verdade, a frase é de Vitorino Freire, como lembram abaixo Renato Janine Ribeiro e Francisco Brandão). Sarney virou presidente porque o mesmo Ulysses colocou-o no Palácio do Planalto, achando que poderia tutelá-lo desde a Câmara. Preferiu isso ao risco de convocar eleições.

Collor foi obrigado a renunciar após uma CPI, após a votação do impedimento pelo Senado e após um movimento popular que, se fosse hoje em dia, seria comparado à primavera dos países árabes ou aos “indignados” europeus.

Ao fazer média com o agora senador Collor (PTB-AL), Sarney pisou no calo de outro colega: Lindberg Farias (PT-RJ). Ele só chegou onde está por causa dos “carapintadas” que saíram às ruas pedindo a derrubada de Collor, e dos quais o atual senador fluminense foi um dos porta-vozes, quase 20 anos atrás. Ou seja, Lindberg é um acidente.

O mural repleto de omissões perpetrado pela direção do Senado é seletivo, casuístico e oportunista. E a justificativa de Sarney para as falhas revela o que de fato ele pensa sobre o processo histórico e político: o que é bom a gente mostra, o que é ruim… dá uma de Ricúpero.

Por essas e outras, o Senado é o estado da arte da política no Brasil, o avanço do retrocesso.

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