Santa desigualdade

Santa desigualdade

Jose Roberto de Toledo

18 de fevereiro de 2013 | 15h09

Como faz há séculos e séculos, um colégio humano escolherá o representante divino. À parte o paradoxo, o grupo de 117 cardeais tem mais problemas de representatividade do que o Senado brasileiro. O catolicismo não é nem pretende ser uma democracia, mas se o futuro ex-papa quisesse de fato reformar a Igreja deveria ouvir os números. Eles têm muito a confessar.

A Itália, sozinha, tem 28 votos no conclave que elegerá o novo papa, cinco a mais do que toda a América Latina e Caribe juntos. São menos de 58 milhões de italianos católicos contra quase 500 milhões de fiéis latino-americanos e caribenhos. Para quem tem problemas para segurar seu rebanho, a estratégia de alocação de pastores da Igreja parece mais brasiliense do que celeste.

A abdicação e os sermões subsequentes fazem parecer que o papa está descontente com o rumo da Igreja. Mas, a despeito de sua infalibilidade, ele orientou-a nesse caminho. A desigualdade na distribuição de poder eclesiástico aumentou sob Bento 16.

Nada como estar perto do trono. Enquanto os italianos envolvem o Vaticano por todos os lados, os países que estão a um oceano de distância da Santa Sé têm que purgar os pecados para um seu nativo poder vestir o vermelho. No conclave que elegerá o sucessor de Ratzinger a Itália terá oito eleitores a mais do que teve na escolha de Bento 16 – e a América Latina, um a menos.

Dos 67 cardeais nomeados pelo papa que abdica, 37 eram europeus (dos quais, 20 italianos) e 9, norte-americanos e canadenses. Só um terço das nomeações foi para o resto do mundo, onde vivem dois de cada três católicos. Pode-se argumentar que Bento 16 só preencheu as vagas que já existiam, mas isso significa que ele perdeu a chance de realocá-las para regiões emergentes, onde uma ação mais agressiva poderia repovoar os bancos das igrejas.

A política papal foi eurocêntrica e de manutenção do status quo. Nada fez para mudar o desequilíbrio entre número de fiéis e sua representação na mais alta instância de poder da Igreja.

Cada cardeal brasileiro, por exemplo, representa 14 vezes mais católicos do que um italiano, na média. É a tradição, dirão os tradicionalistas. É questão de fé acreditar que, como reza o Direito Canônico, os cardeais sejam nomeados apenas por serem “notáveis pela doutrina, piedade e prudência”. A inquisição das estatísticas sugere que geografia e dinheiro falam mais alto.

Países cujas paróquias arrecadam dólares e euros têm proporcionalmente mais cardeais. Talvez porque sejam capazes de sustentá-los. Cada um dos 11 cardeais dos EUA representa menos de 6 milhões de católicos, enquanto cada um dos três cardeais mexicanos está à frente de mais de 40 milhões de almas.

As iniquidades encheriam uma catedral. O único cardeal filipino pastoreia quase 70 milhões de fiéis. Angola tem mais católicos que Portugal, mas nenhum cardeal, contra dois portugueses.

Os dois últimos papas eleitos foram os primeiros não-italianos em 500 anos, mas tanto o polonês quanto o alemão vieram de países com super-representação de cardeais. Os seis da Alemanha representam pouco mais de 4 milhões de católicos cada um, e os quatro da Polônia, menos de 9 milhões por barrete. Na média mundial, há um cardeal para cada 10 milhões de católicos.

As confissões estatísticas sugerem que a reforma do poder católico – pregada por Bento 16 após ter pedido para sair – passa por uma política de cotas cardinalícias. Sem mudar sua geopolítica, a Igreja dificilmente sairá de onde está. A maioria das pessoas vai a Roma e não vê o papa, nem o segue no Twitter.

Saias e batinas

“Mulheres nas eleições de 2010” é uma pesquisa de mais de 500 páginas sobre a participação feminina nos pleitos para presidente, governador, senador e deputado. Apesar de terem crescido as candidaturas de mulheres para cargos proporcionais, elas continuam com dificuldade para se lançar ao Senado e ao governo. Uma das razões é o Clube do Bolinha nas direções partidárias. Mas empecilho maior é o dinheiro: candidatas mulheres arrecadaram até 45% menos do que os rivais homens.

Arrecadação não é um problema apenas dos cardeais do Terceiro Mundo.

Cotas universitárias

Segundo o Ibope, 62% dos brasileiros são a favor de cotas para facilitar a entrada de negros, pobres e alunos de escolas públicas nas universidades. Especialistas contrários às cotas argumentam que o apoio grande é reflexo do desejo genérico de diminuir a desigualdade social, não uma defesa ponderada das cotas. Pode ser. Ou talvez seja porque a maioria ainda é de excluídos. O apoio cresce na razão inversa da renda.

 

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