Sabatina com nome de debate é fecho frio de campanha quente

Jose Roberto de Toledo

30 de outubro de 2010 | 01h19

Não foi um debate. Foi uma sabatina. Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) só se dirigiram um ou outro nos cumprimentos iniciais e finais. Durante duas horas, responderam perguntas sorteadas de 12 eleitores, entre 80 indecisos presentes ao estúdio da Globo no Rio. Para uma campanha que foi a mais acalorada desde a de 1989, o desfecho não poderia ser mais frio.

O formato tem méritos: mostra os candidatos de corpo inteiro, obriga-os a se movimentarem, revela ângulos pouco favoráveis. Mas o conteúdo é tão pasteurizado quanto o dos debates tradicionais. Os eleitores faziam perguntas claras, objetivas, específicas, sobre suas dificuldades cotidianas. E os presidenciáveis respondiam de forma genérica, professoral e paternalista: “Ótima pergunta!”, “questão muito oportuna”, a não poder mais.

O debate talvez funcionasse melhor se fosse o eleitor a replicar, em vez do outro candidato. Assistiríamos provavelmente a momentos constrangedores, com o autor da pergunta retrucando algo como “eu queria saber o que vai acontecer com o valão de esgoto a céu aberto na minha rua, não o que o(a) senhor(a) respondeu”. Mas a Globo, como qualquer emissora, não abre chance para improvisos dos convidados.

Os eleitores indecisos são recrutados em uma operação de guerra por todo o país. Passam por pesquisas, filtros, testes. Seus patrões e familiares são convencidos a deixar que viagem. São embarcados para o Rio e lá recebem instruções detalhadas sobre como se comportar na hora H. Ensaiam.

Eles redigem as perguntas que farão, da própria cabeça e punho, mas as fichas são depois plastificadas, para evitar adendos de última hora. Se sorteado, o indeciso tem que ler o que escreveu sem mudar uma vírgula. Nada fora do roteiro.

No Twitter, a antropóloga Adriana Seixas sugeriu que, ao final, os 80 declarassem o voto, para saber qual candidato converteu mais eleitores para sua causa. Os debates da RedeTV! foram acompanhados por um grupo de pesquisa qualitativa, no primeiro e no segundo turno. O resultado não reflete o que pensa todo o eleitorado, mas é indicativo de como avaliam os candidatos.

O risco de fazer isso, que se comprovou, é um dos candidatos, oportunisticamente, se aproveitar de uma avaliação que lhe seja favorável para transformá-la em peça de campanha. No caso da Globo o risco seria menor, já que a propaganda eleitoral acabou à meia-noite. Mas, assim como os candidatos, a emissora optou por uma estratégia defensiva, sem se expor a contragolpes.

O último evento da campanha presidencial foi apenas isso, um marco do calendário eleitoral. Frio, sem confronto direto entre Dilma e Serra, não deve influir no resultado da eleição -como não influíram nenhum dos outros nove debates realizados entre o presidenciáveis em 2010. Sem conflito, prevalece a inércia.

Os quatro institutos que acompanharam a eleição desde o começo concordam que a inércia fovorece Dilma. Serra parece preferir acreditar em suas pesquisas internas de campanha que, alegadamente, mostram seu empate com a candidata do PT. O tucano conformou-se com as regras e nem sequer tentou confrontar a adversária durante o debate. Foi uma tática aparentemente de segurança, mas, no fundo, muito arriscada.

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