Riqueza, corrupção e as urnas: o caso do Distrito Federal

Jose Roberto de Toledo

24 de fevereiro de 2010 | 13h55

O Distrito Federal é a unidade da Federação cujos trabalhadores são mais bem pagos no Brasil. A média de anos de estudo da população é maior do que a dos 26 estados do país. Está no topo da lista de desenvolvimento humano. Brasília é tão rica que há gente comprando dois carros para evitar o trânsito diário (deixa um no Plano Piloto, pega o metro, e deixa outro no bairro em que mora).

Nem por isso os costumes políticos são melhores ou piores do que no resto do Brasil. Seu governador está na cadeia, o vice renunciou. O antecessor, quando era senador, pediu para sair (para evitar a cassação). Discute-se a possibilidade de intervenção federal, e até mesmo o fim da sua autonomia política -o que é um exagero.

Por que a política local é tão complicada no DF, a despeito dos bons indicadores sócio-econômicos?

O DF é a mais desigual das unidades da Federação, tem a maior diferença de renda entre ricos e pobres do país. Uma piada batida entre os moradores da capital constata que trata-se de uma cidade planejada por comunistas da qual os pobres vão embora às seis da tarde, pois não há lugar para eles morarem. De fato, a pobreza brasiliense é periférica, quando não goiana.

Como de hábito no Brasil, uma parte não desprezível da política brasiliense é feita à base de clientelismo. Nos anos de Joaquim Roriz governador houve uma onda migratória para o entorno da capital. Cidades vizinhas como Águas Lindas de Goiás registraram crescimento populacional recorde ao longo dos últimos 15 anos, com boa parte de seus moradores usando a cidade como dormitório, e Brasília como ganha-pão.

O volume de eleitores não-residentes chegou a ser um problema para institutos de pesquisa: muitos moram em Goiás mas votam no DF. Sem captar a intenção de voto desse contingente, em geral pró-Roriz, várias pesquisas eleitorais falharam nos anos 90.

Talvez o isolamento e a desarticulação expliquem a falta de pressão política-eleitoral sobre seus governantes, a sensação de impunidade e a disseminação da corrupção.

O fato é que o Distrito Federal desmente as teses simplistas sobre as causas do mau uso do dinheiro público no Brasil. Não basta ser rico para ser são. Tampouco uma boa política assistencialista que renda alta popularidade aos governantes é garantia de probidade. Uma população escolarizada mas desengajada não consegue manter seus governantes na linha.

A democracia representativa é como ter filhos. Botar no mundo (ou no poder) é fácil. Difícil é cuidar depois.

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