Reprovação de Kassab + rejeição a Serra + geo = Haddad

Reprovação de Kassab + rejeição a Serra + geo = Haddad

Jose Roberto de Toledo

29 de outubro de 2012 | 12h38

Os incomodados que mudem – não de endereço, mas de prefeito. Foi o que aconteceu em São Paulo. Os moradores das regiões mais críticas à gestão de Gilberto Kassab (PSD) votaram em peso no candidato que representava a mudança na prefeitura. Nas periferias petistas da cidade, onde a maioria absoluta acha o governo Kassab ruim ou péssimo, o candidato do PT venceu por 73% a 27% dos votos válidos. Essa onda se expandiu para o centro.

Fernando Haddad (PT) tomou sete zonas eleitorais da metade antipetista de São Paulo que, em tese, deveriam ter votado majoritariamente em José Serra (PSDB). O petista conquistou também as sete zonas volúveis, que oscilam historicamente entre candidatos do PT e seus adversários. Mas não são apenas essas 14 zonas que explicam a eleição de Haddad. A infidelidade ao tucano no seu reduto também fez diferença.

Excluídas as zonas que viraram casaca e sufragaram Haddad, a vantagem de Serra no conjunto das demais zonas antipetistas foi de 66% a 34% – ou seja, mesmo no coração do antipetismo, Haddad teve um voto para cada dois do tucano. Por comparação, na zona petista Serra conseguiu apenas um voto para cada três do rival.

O determinismo geográfico explica boa parte do voto em São Paulo. Ele é mais forte até do que a correlação entre opção eleitoral versus a renda e a escolaridade dos eleitores. A taxa de voto de pessoas mais ricas na área petista é diferente dos ricos na área antipetista. Provavelmente a pressão dos pares e vizinhos acaba fazendo com que a votação seja homogênea nas áreas geográficas com perfil socioeconômico semelhante.

E por que o desempenho de Haddad foi melhor na zona antipetista do que foi o de Serra na zona petista?

Por ser neófito em eleições e ostentar o título de professor da USP, Haddad não somou nada de pessoal à rejeição que qualquer candidato do PT em São Paulo sempre teve e terá. É muito diferente do que ocorreu com Marta Suplicy em eleições anteriores na cidade, por exemplo. Haddad acabou rejeitado por apenas um terço dos paulistanos, como era esperado.

Ao mesmo tempo, Serra bateu recordes de rejeição, principalmente na periferia da cidade. Por três motivos principais: 1) a imagem de que ele governa preferencialmente para os ricos, 2) a renúncia à Prefeitura de São Paulo para disputar o governo paulista e, depois, a Presidência, 3) a campanha negativa e a mistura de eleição com religião, que alienou parte do eleitorado evangélico. A ordem equivale ao peso de cada uma das razões para a rejeição.

Em resumo, a estratégia de Lula para a eleição paulistana funcionou, apesar do susto. A polarização PT x PSDB se manteve e o candidato com menor rejeição acabou vencendo. Mas a estratégia não previa que haveria o fenômeno Celso Russomnanno no primeiro turno. Muito conhecido pela exposição na TV, o candidato do PRB ocupou o espaço que deveria ser de Haddad no imaginário do eleitorado da periferia até a antevéspera do primeiro turno.

Não tivesse Russomanno mostrado toda a fragilidade de sua campanha propondo um novo tipo de tarifa de ônibus que penalizaria mais os pobres que moram na periferia e talvez Haddad tivesse ficado de fora do segundo turno. Foi apenas nos últimos 10 dias de campanha que o candidato do PRB desidratou e abriu espaço para o crescimento do petista nas periferias da cidade.

Os votos perdidos por Russomanno foram diretamente para Haddad e o petista acabou passando ao segundo turno ligeiramente atrás de Serra. No segundo turno valeu a regra do “mal menor”. Como a rejeição ao tucano era mais alta e intensa do que a rejeição ao petista, a maioria dos paulistanos que haviam votado em Russomanno, Gabriel Chalita (PMDB) e até em Soninha (PPS) migraram para a conta de Haddad.

Em resumo, o novo prefeito de São Paulo deve sua eleição à estratégia de Lula, à rejeição de Serra e, acima de tudo, à má avaliação da gestão de Kassab, o que fez a maioria dos paulistanos optar pela mudança.

 

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