Prisão de ideias

Jose Roberto de Toledo

06 de abril de 2017 | 00h10

Após as decapitações em série na virada do ano, as rebeliões diminuíram, e os presídios superlotados e dominados pelo crime organizado perderam as manchetes para outros escândalos. Não significa que o problema tenha sido superado, obviamente. Um dos motivos para a falta de solução é que o tema só vem a público nas crises. Mas não é só por causa da mídia. Ninguém quer discuti-lo sistematicamente: nem autoridades, nem a população.

Essa é a impressão que se tem ao ver os resultados de uma pesquisa nacional sobre o problema carcerário conduzida pelo Ideia Inteligência no mês de março. Os números – divulgados aqui em primeira mão – serão apresentados nos EUA, durante a “Brazil Conference”, organizada por alunos do MIT e da Universidade de Harvard. A pesquisa é representativa da população com acesso a telefone, seja fixo ou celular, o que exclui os mais pobres.

A pesquisa mostra que os brasileiros não estão de acordo sobre as causas do problema carcerário, nem como fazer para solucioná-lo. Sabem apenas que é algo que não vai se resolver por si só. Para 42%, o número de rebeliões e mortes nos presídios do País deve crescer nos próximos dois anos. Só 22% acham que vai cair. E de quem é a culpa? Quem deve encontrar uma saída? Todo mundo.

Para 73%, a questão dos presídios é responsabilidade igualmente dos governos federal e estadual e do Judiciário. Como se sabe, quando a responsabilidade é coletiva, ninguém é responsável. Sem um culpado específico, fica mais fácil para os governo evitarem o tema – até que nova rebelião ocorra e mais cabeças rolem.

Indagados se a superlotação se deve à lentidão da Justiça, que mantém muita gente presa aguardando julgamento, os entrevistados se dividiram: 41% concordam, 24% discordam, e 35% nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário, não me perturbe, por favor.

O que fazer, então?

A maioria dos entrevistados pelo Ideia não quer construir mais presídios como forma de resolver a superlotação e as rebeliões: 53% são contra; só 18%, a favor; o resto está no muro. Uma maioria ainda mais expressiva (56%) concorda com a frase “o preso não deve ser uma prioridade para o gasto do dinheiro público”. Indenizar as famílias de presos mortos em rebeliões? Nem pensar, na opinião de 74%. Só 12% são a favor.

Ao mesmo tempo, 88% concordam que “mais educação e trabalho dentro do sistema prisional são essenciais para melhorar a situação dos presos”. Como fazer isso se a maioria é contra investir dinheiro público nos presídios? Privatizar? A população está rachada sobre essa possibilidade: 35% discordam, 29% concordam, e 36% nem concordam nem discordam. Talvez porque houve rebeliões violentas também em presídios privatizados.

A falta de consenso sobre como tratar o problema, sobre quais são suas causas e sobre quem deve liderar o processo para encontrar soluções abre uma avenida para quem trafega pelas saídas fáceis. O bordão “bandido bom é bandido morto” tem a concordância de 48% dos entrevistados (46% discordam, o resto não sabe). Do mesmo modo, 54% concordam que a polícia deve invadir presídios rebelados sem negociar primeiro.

Há quem defenda que invasão e massacre no Carandiru em São Paulo serviram de munição para o PCC – a organização criminosa que busca dominar presídios em todo o País e está na origem de muitas rebeliões. Em oposição à expansão do crime organizado, multiplicam-se as candidaturas e a popularidade de ex-policiais e ex-militares que defendem a linha dura contra os presos.

A falta de debate e o desinteresse do público permitem às autoridades tirar o problema da agenda de prioridades. Bom para quem, de um jeito ou de outro, se alimenta da falta de solução.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.