Popularidade do presidente influencia eleição do sucessor?

Jose Roberto de Toledo

22 de fevereiro de 2010 | 13h00

É uma pergunta subjacente em grande parte dos comentários, de todos os tipos, sobre os assuntos tratados neste blog. Merece uma tentativa de resposta.

Imagine um cenário em que o governante tem baixa popularidade, como o ex-presidente José Sarney. O que acontece? Seu candidato, a despeito de toda a máquina estatal e da influência da propaganda oficial nos meios de comunicação, fracassa espalhafatosamente. Vale lembrar da candidatura presidencial de Ulysses Guimarães (PMDB). No começo de 1989, o candidato do PMDB era tido como franco favorito, porque o partido era o maior do país, detinha o poder federal e dispunha de muito tempo de propaganda no horário eleitoral na TV e rádio. A vaga de presidenciável na convenção peemedebista foi disputada como se já colocasse o indicado no Planalto. Mas o eleitor reprovava a hiperinflação, as denúncias de corrupção e outras cositas mais do governo Sarney. Ulysses acabou em 7º lugar, com 5% dos votos.

Agora imagine um prefeito bem-avaliado, como chegaram a ser Paulo Maluf em São Paulo e Cesar Maia no Rio de Janeiro. Ambos conseguiram eleger seus sucessores com base na transfusão de sua popularidade, apesar de ambos os candidatos serem desconhecidos e carecerem de carisma. Me refiro a Celso Pitta e a Luiz Paulo Conde. Voltemos no tempo e encontraremos outros exemplos, entre governadores paulistas, como Orestes Quércia e sua cria Fleury Fº, ou Adhemar de Barros e Lucas Nogueira Garcez. Coincidentemente, todos os filhotes eleitorais citados acabaram se voltando, de um jeito ou outro, contra seus criadores.

E Lula? É capaz de transferir votos? Defina “transferir”. Se você entende “transferência” como a capacidade de mandar o eleitor fazer o que ele não quer, a resposta é não. Ninguém tem esse poder, não em larga escala. Um presidente, por mais popular que seja, não consegue, sozinho, eleger um governador. Porque, ao contrário do que gostam de pensar os anti-democratas, o eleitor sabe diferenciar as atribuições de um e de outro. E, desconfio, prefere contrabalançar o poder federal de um com a eleição de seu adversário na esfera local. Não fosse assim, Lula teria eleito Aloizio Mercadante (PT) governador de São Paulo em 2006.

Mas se você define “transferência” como a capacidade de um governante popular alavancar a candidatura de seu sucessor, aí a resposta é sim. Se Lula não tivesse esse poder, Dilma Rousseff (PT) não alcançaria 25% de intenções de voto. E eu não estaria escrevendo esta nota, porque ninguém teria feito a pergunta que a suscitou. E isso é suficiente para eleger um candidato desconhecido?

Obviamente, a resposta a essa questão só teremos em outubro. Podemos especular sobre o desenlace, mas não há precedentes na história recente que sirvam de base para as especulações. O caso do Chile, onde a popular presidente Bachelet não conseguiu fazer seu sucessor, é interessante, mas tem algumas diferenças notórias em relação ao Brasil: a base governista se dividiu em várias candidaturas, o principal candidato governista era um ex-presidente (muito conhecido e com uma imagem própria) e o eleitorado demonstrou vontade de mudar após 20 anos de a aliança governista estar no poder.

No Brasil, o mote desta eleição não é mudança, é continuidade. Os eleitores que conquistaram a estabilidade econômica e o acesso ao consumo ao longo dos últimos 16 anos não estão dispostos a abrir mão dessas conquistas. Não por acaso a eleição se polariza entre os candidatos dos partidos identificados com elas: PSDB e PT. Ganhará quem se mostrar mais capaz de manter e ampliar o que já foi feito.

José Serra (PSDB) larga na frente porque, em boa medida, se enquadra nesse perfil de permanência do status quo, é o mais conhecido dos candidatos e tem a menor rejeição (segundo o Ibope), por enquanto. Dilma se destaca em segundo lugar apenas porque é a candidata de Lula, por enquanto.

Serra será capaz e manter a dianteira? Dilma será capaz de “atropelar” na reta? A probabilidade de qualquer um acertar as respostas a essas perguntas agora é igual à de ganhar uma aposta no Jockey Club.

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