Político indeterminado

Jose Roberto de Toledo

11 de fevereiro de 2013 | 15h16

Após as eleições dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e o noticiário associado a elas, o desinteresse recorde pela política partidária detectado pelo Ibope no fim do ano passado deve ter repicado. Quando política e polícia se confundem, só ganha a desilusão. Bom para os políticos.

Quanto menos interessado o público, maior a liberdade de ação dos profissionais da política. Reações esparsas como as manifestações durante a posse do senador Renan Calheiros ou manifestos virtuais não mudam a opinião pública. Isso acontece apenas quando a ação política alcança seu objetivo. Os cara-pintadas só viraram história porque Fernando Collor caiu.

Por mais méritos que eventualmente tivesse a causa, quem vai lembrar do “Cansei” daqui a 20 anos? Um nome de movimento raramente foi tão apropriado, por metafórico e auto-realizável.

Se os cidadãos estão mais “cansados” do que “indignados”, ganham os operadores da política, os partidos e seus consorciados. O político indeterminado, aquela figura genérica e caricatural que simboliza o que está de errado com o sistema, se beneficia da desilusão da maioria. Medra na sensação de impotência, na impressão de que não há jeito.

Por isso é compreensível que nenhum presidente do Congresso tenha feito algo para tentar mudar a imagem cada vez pior do Legislativo. Ou que os partidos políticos nem se preocupem em salvar a cara da política partidária. O desgaste das instituições que comandam não os afeta. Talvez os ajude.

Continuam valendo, porém, todos os lugares-comuns sobre o tema. A política ainda é importante demais para ser deixada apenas nas mãos dos políticos – e quem diz não gostar dela permanecerá para sempre condenado a ser governado pelos que gostam. Que fazer?

Como a democracia no Brasil ainda está associada principalmente às eleições, qualquer tentativa de reverter a tendência de alienação e reaproximar o público da política tem que passar pelas urnas. Embora as campanhas eleitorais sejam cada vez mais curtas e despolitizadas, elas ainda são o único momento de mobilização de massa com data fixa no calendário.

O primeiro movimento para salvar a política das mãos de seus operadores, portanto, tem que estar colado ao ato de votar. Por mais contraditório que pareça, transformando-o em uma ação voluntária. Afinal, antes de ser dever, o voto é um direito.

O filósofo Renato Janine Ribeiro observou, no livro “Política: para não ser idiota”, que o voto obrigatório cria um mercado cativo para os políticos. Não importa o que eles aprontem, terão sempre a garantia de que a quase totalidade do eleitorado estará lá, digitando sues números e referendando seus nomes. Não precisam defender a política nem convencer ninguém para se legitimarem.

Se o voto fosse voluntário, a decisão do eleitor seria precedida por uma nova reflexão: vale a pena votar? Há algum candidato que mereça o meu esforço de sair de casa e ir à seção de votação?

Nas palavras de Janine Ribeiro: “Se eles tiverem que convencer o povo de que votar é importante, terão de militar em favor da política, e não só da política deles. Terão de mostrar que a política significa alguma coisa. Hoje, quem faz essa campanha é a Justiça Eleitoral. Deveriam ser os partidos, os candidatos.”

“Eles”, no caso, são o político indeterminado.

É difícil prever quais partidos se beneficiariam ou se prejudicariam com o fim da obrigatoriedade do voto. Tanto é assim que são raros os políticos brasileiros que concordam com a ideia. Na dúvida, calculam, melhor defender o status quo – afinal, em time que está ganhando não se mexe. Mas o voto obrigatório é uma jabuticaba que azeda nosso sistema eleitoral.

As duas últimas vitórias do Partido Democrata nas eleições presidenciais nos EUA se deveram, principalmente, ao sucesso do seu esforço de mobilização para levar os eleitores às urnas. Isso implicou muito mais do que fazer propaganda na TV. Foi preciso mobilizar milhares de militantes e desenvolver argumentos convincentes. Tudo isso favorece a politização da campanha – exatamente o contrário do que tem ocorrido no Brasil.

Como o fim da obrigatoriedade do voto escapa ao cálculo político e avança no campo da incerteza, é improvável que tal ideia entre espontaneamente em debate no Congresso. O voto não-obrigatório só tem chance de prosperar se vier de fora para dentro do mundo partidário. Seria um avanço e uma provocação. Afinal, nada incomoda mais o político indeterminado do que perder o controle.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.